VAI DAR TUDO CERTO




Quantas vezes você já ouviu a frase da moda dita insistentemente por “coachings” e livros de autoajuda: vai dar tudo certo! Pois é, mas nem sempre tudo dá certo na vida.


Hoje estou em Kirkjubæjarklaustur, um vilarejo ao sul da Islândia. Minha expedição está no fim e hoje pensava que estou orgulhoso que das muitas coisas planejei não terem dado certo. Estranho né, mas garanto que o aprendizado foi maior caso essas tivessem dado certo.


Existe um certo fetiche por acertarmos de primeira e não errarmos nunca. Lembro de uma entrevista que dava, quando o entrevistador me perguntou qual a porcentagem de acerto que tinha no meu planejamento. Educadamente respondi que o planejamento era apenas uma linha a seguir, mas minha vontade era ter respondido o quanto escrota e sem noção fora essa pergunta. Não, nem tudo dá certo do que eu planejo nas expedições ou na minha vida, mas sigo em frente mesmo com a ferida aberta e isso é o que vale. Por que é tão difícil pensar assim?


A partir do momento que você garante ao outro que tudo dará certo, você está automaticamente criando uma ilusão no mínimo injusta e privando o outro de viver as negativas que de fato nos amadurecerem.


Conto essa história porque estou nesse momento preso dentro de uma barraca, com as varetas da sua estrutura batendo nos meus pés a cada rajada de vento. Amanhã fará um dia no lindíssimo de sol e céu azul, segundo a previsão islandesa e que certamente daria uma lindíssima foto. Entretanto, o vento gelado chegará mais forte, acabando com qualquer perspectiva de sair de onde eu me encontro. Ontem, um ciclista alemão que conheci, foi pego por uma tormenta. Enquanto empurrava sua bicicleta ladeira abaixo por longos 20 km, foi salvo por uma camper van. Não se brinca com a natureza na Islândia, pois nem tudo sai como o planejado, nem tudo dá certo.


Quando afirmamos ao outro que tudo dará certo, protegemos o esse do sofrimento mesmo sabendo da possibilidade de não dar. A positividade tóxica, tão comum hoje em dia, ao invés de encher o outro de esperança, o enche de ilusões e no discurso descabido de que podemos tudo o que desejamos. Sempre tive vontade de sugerir aos coachings de plantão que voem. Subam em um prédio bem alto e afirmem para vocês mesmos que tudo vai dar certo e são capazes de voar. Em seguida, atirem-se do topo do edifício acreditando nesse discurso.


Concordo que é importante acordar o outro para suas potências, mas também é bom prepará-lo para seus fracasso e para a inevitável condição humana de que nem tudo dá certo na vida.


Dessa forma, continuo tentando chegar a Reykjavik até 12 de julho. Quero chegar vivo e a essa altura, chegar na data certa ou não passou a ser irrelevante.

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