UMA VIAGEM AO CENTRO DA TERRA




Desde criança gosto de ficção científica. Admiro os autores que voam em sua imaginação e criam suas personagens com uma química pensante muito particular. Não tenho essa capacidade de criação.


Durante a expedição de 2018 do Projeto Giraventura, atravessei o Meridiano de Paris e uma das cidades icônicas que visitei nessa rota foi Amiens, na França, cidade onde Júlio Verne faleceu e viveu por 34 anos. A casa dele estava lá intacta. Lembro que ficava numa esquina e, na ocasião, isso me trouxe enorme saudosismo.


Lembrei-me da época de como era bom ser criança, da despreocupação com o tempo cronológico. Lembro-me que um dos meus xodós era um álbum de figurinhas da saga de Guerra nas Estrelas e dois livros instigantes de ficção científica, ambos de Júlio Verne: 20000 Léguas Submarinas e Viagem ao Centro da Terra.


No ano passado, Viagem ao Centro da Terra voltou à cabeceira da minha cama depois de encontrá-lo em um sebo em São Paulo. Quando comecei a relê-lo, redescobri algo que não me recordava. O túnel por onde os cientistas entram em direção ao centro da Terra é o vulcão Snaefellsjökul, na Islândia.


Pois é, quem diria que décadas depois estaria pedalando no Parque Nacional Snaefellsjökul. Percorri o parque de ponta a ponta, me sentindo na Lua e imaginando a inspiração que esse lugar trouxe a Verne para a construção de uma história dessas em pleno século XIX.


Resolvi brincar comigo e enquanto minha quilometragem avançava pela estrada, imaginei-me pedalando dentro do vulcão Snaefellsjökul. Fantasiei minha bike como se fosse uma nave e eu, o cientista. Gostei do jogo e comecei a gritar várias vezes pela estrada: o que há no centro da Terra, o que há no centro da Terra? Os carros que passavam ao meu lado abaixavam a janela para me ouvir e não sabiam se cantarolava ou era um de delírio por conta frio de 1ºC.


Não me importei, pedalei meu curso imaginário parando muitas vezes para me questionar se tal introspecção poderia se tornar perigosa. Não pelos motoristas que viam um doido na estrada indo de um lado para o outro, mas porque tal viagem poderia percorrer caminhos sinistros, onde o meu lado escuro da Lua é bem escuro. A raiva, o ressentimento de algumas pessoas que convivi, desejos sexuais proibidos, a inveja ou as mentiras que já contei. Contar mazelas aos outros nos torna frágeis, por isso preferimos as esconder.


Snaefellsjökul é arriscado, mas melhor estar em um lugar desses, inóspito, livre de observações e câmeras de monitoramento para uma boa reflexão.


Se há regras fora do vulcão, certamente devem ser obedecidas para convivermos socialmente, mas entender nossas psicopatologias é fundamental para viver como casal ou em grupo. Como faria isso? Isolando-me dentro de Snaefellsjökul. Aceitei minha construção e segui minha viagem!


Entretanto não é possível viver em Snaefellsjökul é outro mundo e a explosão sempre está próxima. Foi o que aconteceu, por um descuido passei em cima de uma pedra e fui arremessado para fora da bicicleta. Molhado e sujo de lama, olhei para os lados e voltei a enxergar o mundo de onde vim, mas de uma maneira diferente e mais respeitosa comigo e com os outros.


Minutos depois da queda e já recuperado, abri os olhos, mas não havia saído na Sicília, na Itália, como propôs Verne. Estava em Ólafsvík, Islândia, com a calça rasgada, depois de de ter pedalado 70 km na chuva e no frio. Bem-vindo de volta!

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