THE WEST FIORDS - PARTE 3


Depois de tudo o que aconteceu no dia anterior, consegui dormir três horas. Acordei cedo com o rosto inchado e olhos vermelhos. Abri a barraca e o dia estava nublado e frio, normal.

Fiz meu café no avanço da barraca. Meus talheres e panela estavam imundos do dia anterior e pairava um cheiro de comida apodrecida do fundo da minha sacola.

Saí da barraca em seguida, olhei para a bike e a vontade de sair pra pedalar para cobrir os últimos 125 km até Saegerg era nenhuma. Meu corpo estava doendo, minhas articulações estalavam.

Resolvi ir até o sports center para tomar um banho. Assim fiz, paguei 1500 coroas, fiquei lá por 30 min e voltei para a barraca para dormir novamente. Acordei 18 h e não queria sair naquele horário, achei loucura o que fizera no dia anterior pedalando sozinho numa estrada vazia à meia-noite. Então, decidi passar mais uma noite acampado.

Nesse tempo, consegui recuperar minhas horas mal dormidas e dois dias depois da chegada a Holmavik eu estava pronto para a última etapa dos West Fiords.

Novamente chequei as condições de tempo e vento. Minha preocupação maior era o vento, pois já tinha entendido que a previsão do tempo islandesa era mera sugestão. Nunca havia enfrentado condições, que por questão de 2 km, o sol dava lugar a um forte temporal. Realmente era aterrorizante, colocar-me na estrada nessa situação, sem apoio, sem vilas ou cidades e ser pego de surpresa por uma tormenta no meio da rota.

Ainda assim parti para o pedal, pois julguei que o vento poderia me ajudar em pelo menos 70% dessa etapa. O maior desafio seria novamente a travessia de uma montanha, após atravessar o último fiorde.

A estrada começou boa, asfaltada e passou a ser de cascalho alguns quilômetros a frente. Ambíguo, mas ao mesmo tempo que tremia de frio, começava a suar dentro da minha roupa. Naquele momento não havia o que fazer, meu vestuário encharcava gradualmente à medida que avançava. Abri o zíper da jaqueta tentando deixar entrar um pouco de ar gelado para compensar o suor, mas tudo o que sentia era mais frio. Passei a conviver com a situação. Quando não podemos mudar algo, deveríamos pensar em nos adaptar.

Depois de ser favorecido pelo vento no lado oeste do fiorde, parei atrás de uma caminhonete estacionada que balançava com as rajadas. Assustado, respirei fundo e segui, era hora de enfrentar os 20 km de vento contra, agora do lado leste.

A cada pedalada, uma rajada vinha de encontro, balançando a bike e quase me derrubando. A potência colocada nos pedais era tão grande que me dava a impressão de estar subindo uma rampa.

Depois de conseguir terminar os primeiros 40 km, passei por um vilarejo de pescadores e avistei a temida montanha logo à minha frente. A estrada fazia curvas em zigue-zague, subindo morro acima, mas entendi que isso talvez me favorecesse. Tão logo comecei a escalada, fui literalmente empurrado pelo vento, que me levava ladeira acima enquanto sequer girava o pedal. A boa experiência durou pouco até a estrada direção da estrada tomar outro rumo; assim, o vento veio lateral de forma que não consegui mais pedalar. Decidi descer e empurrar a bike enquanto uma tempestade de areia gelada batia no meu rosto como flechas pontiagudas. Olhei rapidamente para o marcador do meu GPS que indicava 3ºC. Empurrando todo o equipamento morro acima, passei ao lado de estação meteorológica que dispunha de um anemômetro com uma ventoinha empunhada em um mastro. Na sua base, um marcador digital não mentia: o vento norte vinha a 60 km/h.

Continuei até começar a descer e cair numa praia de pedras e areias escuras. Ali, a estrada mudaria de direção pela última vez, agora para o sentido sul, o que me favorecia. Tive assim mais 40 km de vento nas costas que me empurraram até a R1, a ring road, principal rodovia da Islândia.

Parei em um posto de combustível completamente molhado e tremendo. As pessoas me olhavam como se fosse um alienígena de capacete e poncho. Tomei um chocolate quente e continuei até o camping mais próximo, 20 km ao norte, ou seja, voltando ao vento contra.

Ao chegar, entrei de capacete na recepção de um hostel onde um casal de franceses jantava tranquilamente. Ainda estava atordoado, precisava falar com alguém. Depois de anos sem treinar, desembestei a falar francês com o casal e explicar o que havia vivido. Só queria ser ouvido, mesmo que em outro idioma. O casal veio até mim e me ofereceu um prato de comida e um pedaço de chocolate. Consegui acalmar.

Era o fim de três dias de travessia dos west fiords.

Quando fazia colegial, meu professor de química, o Jonas, me ensinou que resiliência é a capacidade que alguns corpos apresentam de voltar à capacidade original após submetidos a certa deformação. As varetas da minha barraca tem essa propriedade e talvez eu também.

Voltar ao meu “estado original” é custoso e definitivamente não é para qualquer um. O corpo dói, a mente arde!

Os momentos que vivi nesses três dias foram marcantes desde que iniciei o projeto em 2013. Há um custo para cada vivência dessa, mas cada vez que retorno e me pergunto se vou experimentar isso novamente, eu me faço uma pergunta antes: qual lugar quero ocupar nesse mundo? Dada a resposta consciente, sigo por aqui.

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