THE WEST FIORDS - PARTE 2

Cheguei a um hotel, uma antiga escola reconstruída, que virou um hotel de bacanas com uma piscina termal. Obviamente fora dos meus padrões. Entretanto, havia luz no fim do túnel, um camping nos fundos do hotel onde seria possível armar minha barraca. Fui recebido por um empregado do hotel, acho que um russo, para lá de grosso e falando um péssimo inglês. Não dei muita confiança, paguei minha entrada e fui armar minha barraca.

Protegido do vento, ajeitei minha cozinha, fiz minha refeição, tomei meu chá e me enfiei no saco de dormir. Minha ideia era levantar, tomar café e partir para Holmavík, 88 km ao sul.

Despertei-me 7 h ouvindo pingos de chuva no teto da barraca, mas logo se esvaíram. O sol veio, empolguei-me, fui desarmando o equipamento e o organizando em um abrigo de madeira que o camping dispunha.

Eram 12 h, estava tudo pronto, armado para sair, quando resolvi sentar para tomar meu último chá. Assim que me levantei para partir, um chuva com vendaval começou a cair repentinamente; com ela a temperatura desceu a 3º C. Fiquei assustado com a mudança drástica de tempo em questão de minutos. Agradeci a Deus não ter partido antes e ser pego pelo temporal do meio da estrada; resolvi esperar.

Aguardava embaixo do abrigo a chuva passar quando o russo do hotel veio até mim e me disse que se não fosse embora, iria me cobrar mais uma diária. Fui contundente e respondi: eu já sei!

Eram 14 h, a chuva não parava, então resolvi retirar minha cozinha novamente e fazer um macarrão. Fazia tanto frio que fui comer dentro do banheiro onde havia um aquecedor.

O tempo foi passando e nada da chuva cessar. Às 17 h, vi o funcionário russo vindo novamente em minha direção. Antes que ele expressasse algo, logo falei: eu já sei que se eu dormir vou pagar, estou terminando de arrumar meus equipamentos; virou as costas sem dizer uma só palavra e se foi.

Eram 18 h quando comecei a olhar para o céu e vi alguns clarões no sentido que pedalaria. Aos poucos, a chuva começou a cessar. Consultei pela 10ª vez nesse dia a previsão do tempo e vento. Sentei-me no chão, olhei para a bike por longos 5 minutos e falei em voz alta: é hora de partir!

Subi na bike às 18h30, puxando a mim e mais 50 kg de equipamento para o percurso de 88 km que me levaria a Holmavík. O planejamento da rota era claro: 22 km para dentro do fiorde leste (vento contra), 22 km no fiorde oeste (vento a favor), 21 km de subida com declividade média de 9% e 26 km de descida e reta. Assustador!

Nos primeiros 20 km estava com muita energia, bem alimentado e consegui quebrar o vento de 20 nós com certa tranquilidade. A chuva ia e voltava diversas vezes, quando desisti de vestir e retirar o poncho que cobria minha jaqueta e resolvi ficar permanentemente com ele. Já os próximos 20 km do fiorde oeste, fui empurrado pelo vento até o início da subida, quando um buraco no céu se abriu iluminando meu caminho.



A placa indicando o início da subida foi marcante. Os números islandeses são muito precisos. Aqui, os fenômenos naturais são levados a sério.



Iniciei a subida, que variava com vento lateral e contra. Aos poucos, guiava-me pela bússola que indicava quando a estrada mudava de direção e o vento me ajudava. Conversava com o vento, chamando-o de amor, amigo. Era meia-noite quando terminei os 21 km de subida; estava tudo claro, cachoeiras para todos os lados e picos de neve. Vi alguns gansos no caminho. Não sei se delirei ao vê-los perambulando, mas me perguntei: como ali vivem?



Estava completamente ensopado de suor por baixo da jaqueta. Não quis usar a roupa seca que separara para a descida, queria sim terminá-la logo. Com os olhos cheios de lágrimas, gritava para as montanhas que havia conseguido conquistá-las; agradecia-as! Desci como uma flecha montanha abaixo enquanto os discos de freio se esfumaçavam. Não passavam mais carros, estava sozinho naquela imensidão branca, o que era um prêmio para mim!

Cheguei ao camping em Holmavík atordoado. Era 1h30 e, com o dia claro, o sol apareceu como um troféu para que eu pudesse montar minha barraca em paz. Fazia 1ºC, quando armei minha barraca, arranquei rapidamente minha roupa molhada e me pus dentro do saco de dormir. Já na barraca, preparei um mingau de aveia com um pouco de leite em pó que havia ganho de uma alemã. Deitei e dormi pensando no dia seguinte, quando teoricamente finalizaria a travessia dos fiordes islandeses.

Descansei para tentar continuar.

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