GAM ZU LE TOVA


Sempre tive amigos judeus, um deles, o Daniel, ensinou-me em certa ocasião uma expressão em hebraico: gam zu le tova, que traduzindo para o português: isso também é para o bem.

Adoro analogias com o meu estado de espírito, principalmente quando estou em expedições complicadas com essa na Islândia. Ontem, atravessando os fiordes islandeses, lembrei desse ensinamento judeu em um dos momentos mais difíceis dessa experiência.

Deixei a pequena vila de Pingeyri para pedalar pouco, 60 km até a cidade de Ísafjördur. Como de costume, chequei direção e velocidade do vento, as condições metereológicas no vedur.is, talvez no “weather forecast” mais preciso que conheça. Impressionante como os islandeses levam a sério a meteorologia no país.

Para chegar a Ísafjördur, era preciso passar por dois fiordes, entre eles ou debaixo deles, não sabia ao certo. Entretanto, como o fiorde é uma montanha, também chequei as condições altimétricas para a travessia.

Tudo preparado, 60 kg de equipamento checado, alimentação de viagem e de emergência ok, parti.

Contornei toda a baía e no seu cotovelo comecei a sentir um vento frontal. Apenas 15 km depois começaram a cair os primeiros pingos de chuva; parei e coloquei meu poncho (usado para chuvas leves).

A primeira montanha chegou, escalei 400 metros morro acima e a chuva apertou; não quis parar de pedalar. As gotas finas da chuva pareciam agulhas de acupuntura, que penetravam no rosto a todo momento. Os carros passavam sem constrangimento, levantando um spray de água que encharcava cada vez mais a minha roupa. A essa altura, o poncho servia apenas como uma pequena barreira de proteção. Na verdade, já estava ensopado por baixo dele.

Cheguei ao cume da primeira montanha. Rodeada de neve, comecei a descê-la. Pensaria o leigo: que bom, uma descida em banguela para aliviar. Pois é, nessa situação a descida é pior, uma vez não pedalando, seu corpo esfria e é consumido pelo ar gelado à volta.

Após concluir a descida, caí em um vale, onde havia uma lagoa. Parei nela, atrás de uma placa de sinalização para me proteger da ventania e comer algo antes de iniciar a travessia do próximo fiorde.

Voltei a pedalar em seguida e depois de escalar 200 metros morro acima, vejo um túnel à minha frente.

Para os que conhecem minhas histórias, sabem do pavor que tenho de túneis. Esse em questão possuía 5000 metros e passava por baixo do fiorde.

Cheguei à boca do túnel, parei e, quando olhei para ele, lembrei da frase hebraica que Daniel havia me ensinado. Respirei fundo, e disse em voz alta: ganzu le to va.

Adentrei em um dos túneis mais sinistros que já percorri. Minha espinha vibrava a cada pedalada. Ganzu le to va, mas isso também era para o bem! Encontrei dentro desse túnel o calor acolhedor que necessitava para aquele momento. Se do lado de fora a temperatura batia 2ºC, dentro estava quentinho, uns 10ºC, mas sem vento, sem subida ou descida. Tudo plano, calmo e sem carros. A pedalada fluiu pelo túnel escuro até 5000 metros depois já dar de cara com a cidade de Ísafjördur.

Procurei imediatamente um lugar fechado para me aquecer. As pessoas passavam e me admiravam encharcado naquela friaca. Achei um camping com banho quente e lá fiquei.

Na vida você deve agir de acordo

com o que acredita e sempre se perguntar se é isso mesmo que deseja do fundo do seu coração.

Seja do medo do túnel, da subida, do frio ou do vendaval, seja lá o que for, dou continuidade à minha experiência islandesa com esse ensinamento judeu, afinal isso também é para o bem.

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