Arrependimento


Hoje, quando saí cedo de Bom Jesus do Amparo tinha um destino certo, Catas Altas, 55 km adiante.

Rota bem estudada no dia anterior e GPS de prontidão foram o básico para enfrentar o calor das Minas Gerais em pleno verão de janeiro.

A pedalada desenvolveu bem no começo, pedalei pelo trecho duplicado da BR 381 sem muitos problemas e entrei no trevo que me levaria a Barão de Cocais. Em uma cafeteria à beira de estrada e cheia de prostitutas, parei para reabastecimento e continuei pela MG 436. Cheguei a Barão de Cocais cedo e o relógio batia 11 h. Com meu cliente inglês, Nicolas, cansado do Sol que fritava seus miolos, resolvi ir direto a Catas Altas.

No meio do caminho, meu GPS apagou. Continuei por uma estrada de terra que cortava fazendas, na confiança de que desbravaria o caminho e que chegaria a Catas Altas em breve.

A água começou a terminar quando entramos em um trecho de fazendas pedalando por uma montanha até finalmente eu perceber que, de fato, não estava indo a Catas Altas. Tentei ligar meu GPS novamente, nada! Começava a ficar preocupado, não por mim, mas pelo Nicolas. Com o celular sem bateria, ainda segui meu instinto e continuei. Já arrependido de ter tomado a decisão errada ou por não carregar um mapa de papel (básico de alguém que tem um mínimo de experiência em viagens de bike) senti-me culpado por estar ali e proporcionar uma das piores experiências a um turista estrangeiro, um perrengue.

Arrependido pela decisão do caminho que havia tomado, algumas centenas de metrô adiante, dei de cara com um conjunto de pedras. Era o Aqueduto do Bicame de Pedra construído por escravos em 1792, para captar água da Serra do Caraça até Brumado, onde o ouro era extraído e lavado. De brinde, ao lado do aqueduto, uma fonte de água, geladinha e pura.

Senti o presente real e com uma vista deslumbrante à extraordinária Serra do Caraça, sentia a satisfação do Nicolas de estar ali, visitando um dos marcos mais lindos que o Caminho dos Diamantes pode proporcionar.

Foi ali que me perguntei por que sentimos tanta culpa por caminhos errados que frequentemente tomamos. Por que seria o caminho que sonhei viver melhor do que o que estava vivendo naquele momento? Temos esse hábito, valorizar o ontem e o amanhã em detrimento ao hoje. Tomar decisões baseadas em fatos reais talvez seja melhor do que viver expectativas ou de valorizar momentos que nem se sabe se seriam melhores ou não. Mas pra isso, precisamos de coragem.

No fim, virei as costas para a escolha que não fiz e curti como nunca aquele momento que me fora brindado pelo caminho da vida. Respirava felicidade!

Uma hora depois, alcancei Catas Altas, sadio, de corpo e alma, e pronto pra mais uma jornada sem expectativas e principalmente sem arrependimentos.

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