Afuá


Entretanto, foi só durante o planejamento da etapa do Oiapoque ao Chuí que vi ser possível alcançar a cidade através de uma lancha que saía de Macapá, percorria o Rio Amazonas e chegava a Afuá duas horas depois. Não tive dúvidas em separar um dia para conhecer a cidade em detalhes.

Cheguei a Afuá na parte da tarde, saí do píer e fiquei paralisado com o que vi. Bicicletas, bicicletas e mais bicicletas, por todos os lados. Acabara de chegar na cidade que é um sonho para qualquer cicloativista. Ruas sem sinalização, onde as pessoas instintivamente preveem as ações das outras.

Segui para a pé para um pousada simples, a qual havia reservado. Depois, fui direto à bicicletaria mais próxima, a bicicletaria do Pipoca. Aluguei uma bike que custava R$ 10,00 por dia. Precisa pagar agora, perguntei à dona. Não há necessidade, respondeu ela. Você quer minha identificação, perguntei intrigado. Não precisa, devolva amanhã e pague na volta. Saí pedalando. Como diria Drummond: “a confiança é ato de fé, e esta dispensa raciocínio”. Difícil aceitar essa máxima, uma vez que desconfiamos de tudo e de todos o tempo todo.

Sentia-me um rei em Afuá. Jamais imaginei que fosse pedalar aqui. Foram horas rodando pelas palafitas e estruturas de concreto, vendo crianças carregando seus irmãos na garupa ou mulheres pedalando com apenas uma mãos enquanto a outra segurava graciosamente uma sombrinha. Aliás, sombrinha que se faz necessária frente ao calor de 40 graus e 80% de umidade relativa.

Afuá me encantou. Parti no dia seguinte, admirando da lancha a cidade que em poucas horas me conquistou. Sou privilegiado e já tive a oportunidade de conhecer lugares como Amsterdam e Utrecht, Holanda, nomes mundiais e referências quando se trata de mobilidade ativa. Garanto a todos que Afuá faria inveja a essas cidades porque Afuá é simples e faz da sua simplicidade o seu jeito de ser. Enquanto cidades super desenvolvidas investem milhões em educação no trânsito e regras rígidas a motoristas irresponsáveis, Afuá investe em um modo nortista e brasileiro de se tocar a vida e fazer e tirar dela o que há de mais melhor, o jeito puro das pessoas que primam (sem exageros) pela qualidade de viver bem.

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