Vila Carnot


Dormi na aldeia, numa espécie de barracão, um centro comunitário com as laterais abertas. Durante a noite, dois problemas, pernilongos aos montes e um cachorro sarnento que veio fuçar meu equipamento espalhado pelo chão. O pentelho fez barulho a noite toda, não parava de se coçar e, quando levantei de madrugada, havia mijado no chão todo e dormia em cima do meu chapéu. Fiquei puto, tentei tocá-lo de lá, mas sem chance, o bicho olhava pra mim e insistia em ficar.

Incrivelmente, a noite esfriou. Levantei pra me enrolar no saco de dormir enquanto os pernilongos faziam sua algazarra. Levantei de novo, peguei minha tela mosqueteira de cabeça e eram 2h30 quando consegui dormir um pouco. A aldeia fica no breu durante a noite, não se vê nada. Assim, não acordei às 5h e tive que esperar o dia clarear para poder começar a arrumar meus equipamentos.

Saí da aldeia 7h, mas já bem preocupado com o Sol. No céu, nenhuma nuvenzinha e o Sol aos poucos foi nascendo ao meu lado esquerdo. Pedalei os primeiros 20 km em um ritmo bom e, mesmo com subidas e descidas intermináveis, desenvolvia bem.

Eram 9h quando parei em uma venda pra comprar uns pães e tomar um café. Suplementei reforçando a minha alimentação e parti novamente. Tinha 47 km pela frente.

Às 10 h, já estava na base do esforço. Avistei um restaurante no km 30. Tomei muita água e parti para a reta final.

Mesmo bem hidratado e alimentado, o Sol foi minguando minhas energias. Então, utilizei a tática de ontem. Aguardar nas sombras das árvores a passagem de uma benevolente nuvem para que pudesse avançar. Já cansado, achei uma árvore antes de uma subida íngreme e lá aguardei longos 20 minutos pra me recuperar. Quando decidi encarar a subida, fui literalmente tragado por uma vala cheia de pedras e fui ao chão. Levei uma pancada forte na coxa esquerda e esfolei todo o ombro. Levantei, comecei a empurrar a bike e avistei uma casa ao meu lado esquerdo. Não tive dúvidas e passei pela porteira pra pedir apoio. Chegando lá, vi que a casa era toda aberta e uma família comia tranquilamente em uma mesa. O patriarca, Carlos, veio até mim e viu meu ombro sangrando. Falou imediatamente para me lavar. Peguei meu sabonete e tirei toda terra e pedra em cima do machucado. Tão logo voltei, Carlos e sua esposa, Ana, convidaram-me para almoçar. Serviram-me macarrão, arroz, tatu assado e um refrigerante. Carlos sugeriu que montasse minha rede na sua garagem e aguardasse o Sol baixar para continuar. Já se passavam das 16h quando revolvi partir, mas não sem antes bater uma foto oficial. Ficou a amizade e a satisfação deles em terem me apoiado naquele momento de dificuldade.

Faltavam 20 km até Vila Carnot. O Sol amenizou, mas os morros da estrada não davam trégua. O que aliviava era a formação de lindos lagos verdes com árvores meio às montanhas. Gaviões e barulhos estranhos vindos da mata também me acalmavam. A 12 km da vila, um trabalhador da BR 156 me parou oferecendo água gelada; quis bater uma foto ao lado da bike.

Fui alcançar Vila Carnot 11 horas depois da minha partida. Estafado, procurava forças para achar um lugar onde pudesse tomar um banho e descansar. Nada, vila pequena, tudo lotado por trabalhadores da BR 156. Já disposto a tomar um banho de rio e montar a minha rede em um ponto de ônibus, consegui uma vaga na casa muito simples de um senhor. Tomei um banho de balde, fiz minha comida e deitei para a nova etapa de amanhã.

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Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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