Reencontros


Cheguei a Diamantina! Há 8 anos havia pisado por essas terras.

Tinha 46 anos naquela época, não sabia muito o que fazia aqui. Quer dizer, sabia mais ou menos, pois havia 6 meses que fizera uma cirurgia no joelho e uma tal de Estrada Real chamou-me para um embate: uma cicloviagem.

Naquela época, tinha um site, chamava-se Giraventura. Parecia-me um blog pessoal, afinal descobrira que gostava de escrever. Imaginei que podia relatar minha experiência dessa cicloviagem é transcrevê-la em palavras. Talvez ninguém lesse, mas não importava, passei a escrever para mim como uma espécie de diário de viagem, apenas um registro dos acontecimentos da maior aventura da minha vida até então.

Saí de Diamantina no final de dezembro de 2012 com destino a Paraty, RJ, aproximadamente 1.200 km de estrada. Foi a primeira vez que deixei meus filhos pra viajar sozinho, na época com 12 e 14 anos de idade. Foram 16 dias muito especiais que passei comigo mesmo, dando o pontapé inicial para começar a re-enxergar a vida.

Jamais imaginaria o impacto dessa despretenciosa jornada nos dias atuais, nas 8 etapas do projeto que se sucederam.

Sabemos que esse tal de tempo é um mestre caprichoso, com lições repentinas que nos sufocam ou que se depositam lentamente diante da ansiedade e da nossa sede por respostas imediatas. Cruel? Por isso quem tem o privilégio de viver muito tempo, aprende a olhar com serenidade esse furacão de encontros da vida e só então passa a compreendê-lo. A verdade é uma, brigamos constantemente com ele, mas que se diga a verdade: somos reles insignificantes.

As memórias deixadas de lado em função do tempo são naturalmente desprezadas uma vez que essas vão escurecendo. Mas a vida é tão incrível que o passado nunca se apaga por completo. É aí que somos pegos de calça curta e surge o reencontro. Sabe aquelas experiências que ficaram pra trás? Amores passados, coisas que o tempo se deu o luxo de tampar vagarosamente, reaparecem à sua frente por pura ironia da nossa história.

Hoje isso aconteceu comigo. Andar pelo calçamento de pedra de Diamantina me fez recordar um passado de felicidade, dores e mudanças. Parei em frente Catedral Metropolitana de Santo Antônio, sentei na sarjeta e depois de cinco minutos ouvindo os passos das pessoas andando sobre as pedras capistranas, comecei a chorar. Parecia que lia um livro antigo, desses empoeirados que mofam na estante e quando nos permitimos relê-lo, as sensações são outras.

É preciso ter coragem para o reencontro. Enfrentar novamente as alegrias, as paixões, dores e angústias, tudo misturado em um só pote, definitivamente, não é pra qualquer um. Aí ficou a pergunta no ar: vai encarar meu velho?

Reencontrei a Estrada Real.

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