Permitir-se

Atualizado: Jan 18


Deixei Mariana tarde, não tive muito compromisso em acordar cedo hoje. Pra ser sincero, ontem dormi tarde, mas tudo bem, sabia que a jornada de hoje era curta.

Ouro Preto estava a 12 km de mim, 12 km de subida, é certo, mas deu ora curtir esse finalzinho de mini expedição de uma forma gostosa.

Pedalava bem devagarinho, quando resolvi parar perto da linha férrea pra tirar uma foto. Nesse instante, sou abordado por um casal de moto.

- Ei, eu te acompanho desde a sua saída do Oiapoque, disse o piloto. O dono dessa frase logo tirou o capacete, veio até mim e se identificou como Silvio Palmieri, um ciclista aqui da região.

Incrível a felicidade do encontro, tanto minha, quanta dele. Tiramos fotos juntos, tirou foto com a bike e depois partiu para busca de goiabas, deixando seu número de telefone comigo.

Em seguida, pedalei até Ouro Preto que não encontrava há 7 anos. Cidade totalmente fechada por conta da COVID-19, não havia muito o q curtir; decidi partir.

Ao chegar à estação rodoviário, fui avisado pelo atendente da empresa de ônibus que as bikes que transportaria a São Paulo deveriam ser obrigatoriamente embaladas. Mesmo com poucos ou nenhum comércio aberto na cidade, resolvi arriscar. Minha missão naquele momento era achar um jeito de embalar as bikes. A primeira ideia que me veio, foi meter a mão em um lixo reciclável; deu certo! Achei um plástico usado para embalar colchões. Situação parcialmente resolvida, mas ainda faltava a outra bike. Resolvi pedir ajuda ao Silvio, a pessoa da moto horas atrás. Assim que lhe contei meu drama, foi imediatamente até seu atelier e me arrumou um pedaço de plástico bolha e uma fita adesiva; trouxe-me na rodoviária. Assim que chegou, o plástico bolha foi suficiente para embalar as duas bikes, assim problema resolvido. Ainda ganhei de quebra uma geleia de jabuticaba, além de um amigo.

Permitir-se aos encontros é uma das coisas que mais me encanta nessa jornada do Projeto Giraventura. Encontro muita gente, é certo, mas poucas ficam de fato. A simbiose é necessária e acho incrível como isso acontece naturalmente quando estou em viagem de bike. Não forçar um encontro e simplesmente “ganhá-lo” da vida é impagável. Quando isso acontece, sinto que o outro está na mesma sintonia e a partir daí só há benefícios. Abrir o coração para isso e sentir o que acontece e o que está por vir é incrível; isso só acontece porque atitudes reais e sinceras conosco mesmo levam a encontros reais.

Gosto muito de uma frase de Heráclito, que fiz assim:

“Ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois quando nele se entra novamente, não se encontra as mesmas águas, e o próprio ser já se modificou. Assim, tudo é regido pela dialética, a tensão e o revezamento dos opostos. Portanto, o real é sempre fruto da mudança, ou seja, do combate entre os contrários.”

Ser real é proporcionar-nos uma mudança, pra melhor, procurando novos caminhos dentro do rio de Heráclito. A vida passa, o tempo passa e se não nos modificarmos, virarmos a chavinha, permaneceremos parados, às vezes sem perceber.

O rio corre, assim corre a nossa vida e o amor que temos de sobra pra poder compartilhar com quem realmente merece tê-lo.


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