O DESAMPARO E A NECESSIDADE DO OUTRO

Falamos muito a respeito de liberdade. Liberdade de escolha, liberdade de elaborar nossos pensamentos, liberdade…
Nesses dias, pedalando pelas estradas turcas em direção a Burdur, na província de Konya, me deparei com uma contradição: existe algo curioso em viajar sozinho de bicicleta. Buscamos liberdade, autonomia e a possibilidade de decidir nossos próprios caminhos. No fundo, uma metáfora da própria vida. Enfim, bastou uma noite fria para eu perceber que, por mais independentes que sejamos, sempre necessitamos do outro.
Nesse dia, pouco antes do pôr do sol, parei em um posto de gasolina para comer algo. Foi ali que conheci Mustafa, frentista do posto, senhor de meia idade. Ele se aproximou da bicicleta e começou a admirá-la. Ah, como a Guerreira chama a atenção!

Conversamos em um inglês básico, mas suficiente para nos entendermos. Perguntei se conhecia algum lugar ali por perto onde eu pudesse montar minha barraca de camping. Pelo mapa, indicou-me uma área próxima ao Lago Burdur e também um restaurante vizinho ao posto, onde eu poderia comer antes de seguir para o acampamento selvagem. Despedimo-nos.
Já no restaurante aguardava minha refeição, quanto Mustafa simplesmente se sentou à minha frente, pediu algo para comer e começou a conversar. Falamos sobre coisas da vida, os muçulmanos e o islamismo. Sem que eu esperasse, aquele encontro casual se transformou em uma conversa sobre crenças e estilos de vida.
Certa vez, aprendi com Frei Betto que toda refeição é um ato eucarístico. Naquele momento com Mustafa, senti algo dessa aproximação cristã: duas pessoas de culturas e religiões diferentes compartilhando a mesma mesa.
Ao lado do restaurante havia uma Mescid , uma pequena mesquita onde Mustafa fazia suas orações. Ele me convidou a entrar e me mostrou aquele espaço, explicando os gestos e os princípios que orientam a oração islâmica. Por alguns instantes, tive a oportunidade de conhecer um pouco do mundo que dava sentido à vida dele. Despedimo-nos novamente!
Eu estava pronto para partir quando Mustafa veio até mim novamente. Sugeriu que a noite seria fria e que eu talvez não estivesse suficientemente preparado para acampar ao relento. Sua preocupação era evidente, então, conseguiu um cobertor emprestado para que eu pudesse me aquecer. Sim, um cobertor, gigante por sinal é difícil de transportar, mas eu consegui.
No islamismo, a zakat, um dos Cinco Pilares da religião, expressa o compromisso com a caridade e a assistência a quem precisa. Não posso afirmar o que motivou Mustafa em toda a sua dimensão, mas pude experimentar, naquele gesto do cobertor, uma forma concreta de assistência.
Naquela noite, já coberto dentro da barraca, fiquei pensando que nascemos dependentes do outro, e essa necessidade de cuidado não desaparece só porque crescemos. Aprendemos a caminhar sozinhos, a tomar decisões e a construir nossa autonomia, como? Através do outro. Há momentos em que precisamos de alguém que nos ofereça aquilo que, sozinhos, não conseguimos encontrar. Assim é a vida!
De fato, o cobertor era muito mais do que um objeto para me proteger do frio. Era a demonstração de que alguém havia percebido uma necessidade e decidido tomar uma atitude em relação ao outro necessitado.
Talvez seja isso que torne certos encontros tão significativos. Não precisamos compartilhar a mesma língua, a mesma cultura ou a mesma religião para reconhecer a vulnerabilidade de alguém.
Não sei exatamente o que aquele encontro representou para ele, mas, para mim, foi uma oportunidade de perceber como diferenças não precisam ser um obstáculo à necessidade do outro. Repare que muitas vezes, falamos sobre diferenças religiosas, orientações sexuais, culturais e políticas como se fossem muros intransponíveis.
O reconhecimento do caminho escolhido pelo outro começa antes de qualquer explicação sobre aquilo em que acreditamos.
Na estrada, aprendo que a autonomia não significa não precisar de ninguém. Significa poder seguir conscientemente o próprio caminho e, ao mesmo tempo, reconhecer que nossa humanidade também se constrói nas relações.
Na noite gélida, Mustafa me ofereceu um cobertor. Talvez ele nunca saiba o paradoxo que aquele gesto me proporcionou. Levei comigo a reflexão: quando optamos ser autônomos, também somos dependentes de alguém.



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