NUNCA ESTOU INTEIRO PARA O PEDAL DO DIA SEGUINTE
Uma reflexão sobre o ciclismo de viagem, o ego e a necessidade de estarmos sempre 100% para tudo.
O gênio da pop art Andy Warhol disse certa vez: “I never fall apart because I never fall together.” Apesar do trocadilho em inglês, eu traduziria bem aportuguesado: "eu nunca me quebro porque eu nunca acredito estar inteiro."

Tenho pensado nessa frase enquanto pedalo pela Turquia, que me leva a refletir que as pessoas que se sentem muito seguras. No mundo não tem a necessidade de reafirmação da sua autoimagem o tempo todo.
Quando levanto pra pedalar, realmente nunca estou 100% para o pedal que planejei. Há sempre alguma dor, um músculo cansado, um roteiro ou não, uma dúvida ou uma estrada que parece longa demais. Ainda assim, sigo. Não porque estou pronto, mas porque aprendi que não preciso estar pronto.
Talvez exista uma tranquilidade nisso: abandonar a obrigação de estar inteiro o tempo todo. A vida não exige que estejamos permanentemente prontos, fortes, felizes ou plenos. Exige apenas que encontremos alguma maneira de continuar, mesmo quando ainda estamos nos recompondo.
Nas redes sociais, entretanto, parece acontecer o contrário. Somos convidados a construir versões editadas de nós mesmos, personagens que nunca se cansam, que estão sempre evoluindo, conquistando, superando. Aqui o ego encontra um palco inesgotável, onde a aparência de plenitude vale mais do que a experiência de viver. Incrível como isso fica nítido na minha trajetória pela Turquia.
Sabe, há uma diferença entre viver uma experiência e transformá-la em espetáculo. Na estrada, não há filtro capaz de esconder o vento contra, nem legenda que torne uma subida menos íngreme. O corpo impõe sua própria verdade. E é justamente quando nossas ilusões de controle desaparecem que alguma coisa interessante começa a acontecer: deixamos de precisar provar tanto.

Aos poucos, percebo que pedalar não é sobre me tornar uma versão melhor de mim mesmo a cada quilômetro. É sobre aceitar a versão que existe hoje, com seus limites, contradições e imperfeições, sem fazer disso um drama.
Amanhã haverá outra rota a percorrer. Provavelmente não estarei inteiro. E tudo bem. Certamente a liberdade comece quando deixamos de tentar parecer especiais e aprendemos a viver sem a obrigação de sê-lo.




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