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ACAMPAMENTO SELVAGEM - LIBERDADE E TRANSGRESSÃO

há 3 minutos
3 min de leitura

Imagine carregar consigo tudo aquilo de que precisa para sobreviver. Sua casa é uma barraca. Você chega a um lugar ermo, olha ao redor, não vê ninguém e decide: aqui é meu lugar.


Depois de tantos anos acampando selvagem, ou seja, sem estar em um lugar protegido, como um

Camping oficial. Dessa maneira, desenvolvi meu próprio modus operandi para escolher um local pra montar a barraca. A primeira coisa que procuro é água, de preferência um rio ou uma fonte limpa. A água é o ouro da natureza. Em seguida, observo o terreno, procuro um espaço protegido, avalio a presença de pessoas e animais e principalmente se aquele ambiente me transmite paz e presença.


Não necessita ser um lugar ser contemplativo, se for, melhor. Preciso sentir que estarei confortável naquele canto.


Liberdade e Transgressão


ACAMPAMENTO SELVAGEM - LIBERDADE E TRANSGRESSÃO
Acampamento Selvagem - Liberdade e Transgressão

Dentro da decisão de montar a barraca ou não, existe uma questão menos prática e talvez mais profunda: até que ponto tenho o direito de ocupar o espaço que escolhi?


Quando acampo selvagemente, tento perceber se o terreno é público, privado ou se alguém pode aparecer para nos impedir de estar ali. Aqui vive uma linha tênue entre a liberdade de estar e a transgressão de um limite e talvez seja justamente essa linha que torne a experiência tão instigante.


Nosso desejo é amoral e não se organiza apenas em torno daquilo que nos é permitido. A interdição, o limite e o proibido também fazem parte daquilo que desejamos. O sujeito, em determinados momentos, pode se sentir atraído pela possibilidade de ultrapassar uma fronteira, não necessariamente por querer causar dano, mas pela experiência de sair do lugar que lhe foi previamente determinado.


No acampamento selvagem, essa tensão aparece de maneira muito explícita. Estou apenas procurando um lugar para passar a noite ou estou ocupando um espaço que não me pertence?


Montando Acampamento


Ontem, na região de Araovacık, na província de Çanakkale, na Turquia, procurei um lugar para passar a noite. Encontrei uma fonte de água cristalina, um campo de pastagem e uma árvore que parecia me oferecer abrigo. O lugar era bonito, mas acima de tudo, me transmitia uma sensação de tranquilidade.


Para quem acampa selvagemente, a presença de estranhos pode ser mais desconfortável do que a própria escuridão. Não necessariamente porque representem um perigo real, mas porque seus olhares nos tomam a sensação de liberdade. O campista quer estar presente, mas nunca se tornar um centro de atenção. Lembro que no Marrocos, tomava banho pelado em um rio enquanto era observado por curiosos. A água estava ali, a necessidade também, mas a presença daqueles olhares produzia uma estranha sensação de vulnerabilidade.


E quando eu te vejo eu desejo o teu desejo...


O que esses curiosos enxergavam em mim? Um viajante, um sujeito corajoso, alguém transgressor? Ou simplesmente uma pessoa fazendo algo que eles próprios gostariam de fazer?


O que enxergamos no outro revela algo do nosso próprio desejo. Como diria Freud: "quando Pedro me fala de Paulo, sei mais de Pedro do que sobre Paulo."


Aprendizado


O acampamento selvagem não é simplesmente encontrar um lugar para dormir. É aprender a escutar o ambiente, reconhecer o medo e se implicar com seus desejos. É também reconhecer que a liberdade não elimina os limites: ela nos obriga a negociar com eles.


Na vida cotidiana, estamos cercados por regras, olhares e expectativas. Muitas vezes, escolhemos nossos caminhos não pelo que desejamos, mas pelo que imaginamos que os outros esperam de nós.


Talvez a liberdade não esteja em transgredir todos os limites, mas em descobrir quais deles realmente nos protegem e quais apenas nos impedem de viver.

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