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ETNOGRAFIA E CICLOVIAGEM: O QUE UMA VIAGEM DE BICICLETA PODE NOS ENSINAR SOBRE O OUTRO?

3 de set.
4 min de leitura

14ª etapa do Projeto Giraventura — Rota da Seda e Turquia, a partir de 10 de setembro - Etnografia e Cicloviagem


Texto sem IA de Nestor Freire:


Existe uma diferença enorme entre conhecer um lugar e conhecer as pessoas que vivem nele.


Isso ficou marcado para mim após a etapa do Japão em 2024. Podemos ler livros, assistir a documentários, estudar mapas, conhecer a história de um país, suas guerras, seus impérios, suas religiões e seus costumes, mas nada disso nos prepara completamente para o encontro com uma pessoa.


E é justamente esse encontro que me interessa na próxima etapa do Projeto Giraventura a partir do dia 10 de setembro de 2026, começo a 14ª etapa do projeto: uma jornada de bicicleta pela Rota da Seda, atravessando a Turquia em direção ao Cáucaso.


Serão muitas centenas de quilômetros pedalando por uma região que durante séculos foi uma espécie de corredor da história. Por ali circularam mercadorias, exércitos, religiões, idiomas, ideias e pessoas. Só que dessa vez, quero olhar para essa história a partir de uma perspectiva um pouco diferente. Um olhar não meu, mas das pessoas que encontrarei pelo caminho.


Antes de viajar, nós criamos o lugar - ETNOGRAFIA E CICLOVIAGEM


Sabemos que toda cicloviagem começa muito antes da partida, na nossa cabeça.

Antes de girar o pedivela em um país, já carregamos uma imagem dele através de livros, filmes e imagens. Notícias produzem opiniões e relatos de outros viajantes estabelecem expectativas.


Então, antes mesmo de chegar à Turquia, eu já tenho uma determinada Turquia dentro de mim, uma espécie de Turquia imaginária. Tenho estudado o Império Otomano, a história da Pérsia, a Rota da Seda e as diferentes religiões que atravessaram esse território e tentando compreender os acontecimentos que ajudaram a formar aquela região.


Mas existe uma questão que me acompanha: o que acontece quando aquilo que estudamos encontra aquilo que vivemos? É aí que começa a parte mais interessante da viagem.


O campo precisa ser capaz de nos surpreender - ETNOGRAFIA E CICLOVIAGEM


Uma das ideias que mais me interessam na antropologia é justamente essa: o encontro com o outro pode colocar em dúvida aquilo que imaginávamos saber. Exemplo: se acredito que determinado povo é de uma maneira, começo a prestar atenção apenas nas situações que confirmam minha ideia. Se acredito que determinado país é religioso, encontro a religião.

Se acredito que determinada sociedade é conservadora, encontro conservadorismo.


Mas sabe quando aquilo que contradiz essas expectativas? E é aí que começa o verdadeiro aprendizado. Por isso, não quero chegar à Turquia procurando “o turco”, pois essa pesssoa não existe, existem pessoas. Cada um possui uma história, uma memória, uma religião, uma família, uma visão de mundo e suas próprias contradições. E é dessas pessoas que eu quero me aproximar.


A BIKE muda a maneira de olhar - ETNOGRAFIA E CILOVIAGEM


Etnografia e Cicloviagem. O que acontece quando aquilo que estudamos encontra aquilo que vivemos?
Marrocos 2026 -  - etnografia e ciloviagem

Talvez a bicicleta seja o elemento mais importante dessa experiência, não porque ela seja o objetivo da viagem, mas porque ela modifica a distância entre mim e o outro que encontro.

De bicicleta, não atravessamos um território a 900 quilômetros por hora, mas vemos, sentimos o cheiro, escutamos o som do "macaquinho", paramos, conversamos, observamos...


Uma pessoa encontrada na estrada pode mudar completamente o entendimento que eu tinha sobre um determinado lugar. A bicicleta permite uma velocidade interessantíssima para que o território deixe de ser apenas paisagem. Talvez seja essa uma das maiores diferenças entre viajar e simplesmente passar por um lugar.


Quem está observando quem?


Existe ainda uma outra questão que me interessa: quando eu chegar à Turquia de bicicleta, serei eu o observador? Provavelmente não, pois enquanto tento compreender aquelas pessoas, elas também estarão tentando compreender a mim. O famoso "de onde você vem? e "para onde você vai?". Para alguns, eu também serei um completo estranho e isso cria uma situação curiosa: quem está estudando quem?


Não quero voltar com respostas prontas - ETNOGRAFIA E CILOVIAGEM


Não pretendo transformar essa viagem em uma pesquisa acadêmica de antropologia. Não sou antropólogo, mas quero incorporar à minha maneira de viajar algo que considero fundamental nessa perspectiva etnográfica: olhar, ouvir, conviver, perguntar e permitir que o outro também transforme aquilo que pensamos saber.


A 14ª etapa do Giraventura - ETNOGRAFIA E CICLOVIAGEM


Etapa 14 do Projeto Giraventura - Rota da Seda e Tuqruia
Etapa 14 - Projeto Giraventura - etnografia e ciloviagem

A Turquia e parte da Rota da Seda será a 14ª etapa do Projeto Giraventura. É uma etapa particularmente simbólica. Depois de mais de uma década viajando de bicicleta por diferentes partes do mundo, chego a uma região que foi, durante séculos, um dos grandes pontos de encontro entre Oriente e Ocidente.

Assim a pergunta mais importante não é por onde passou a Rota da Seda, mas o que o turco, o armênio, o georgiano ou simplesmente alguém que vive ali pensa sobre a sua região? E, principalmente: o que essas pessoas poderão me ensinar sobre o mundo que eu ainda não sei?


NÃO É SOBRE LUGARES, MAS SOBRE PESSOAS

Etnografia e Cicloviagem. O que acontece quando aquilo que estudamos encontra aquilo que vivemos?
Família Marroquina em 2026

Há um mantra que acompanha o Giraventura há alguns anos: Não é sobre lugares. É sobre pessoas. Na Transamazônica em 2023, comecei a compreender melhor o significado dele e na Turquia quero colocá-la novamente à prova, porque talvez viajar seja justamente isso.

Sair de casa levando algumas certezas e voltar com mais perguntas. Percorrer milhares de quilômetros para descobrir que o mais importante não estava no mapa, mas na histórias que ouvi das pessoas.


No dia 10 de setembro, começo a pedalar. Levarei uma bicicleta, meus equipamentos, muitas perguntas e uma enorme disposição para ouvir o outro. O resto, espero que a estrada me ensine.


2 comentários

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Cida
15 de set.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Começando a entender o pq deste seu projeto!

Maravilhoso,boa viagem que os anjos cuide de vc.

Bjs ♥️

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Aparício
10 de set.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

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