MYVATN




Estou em Myvatn, em frente a um lago que leva o mesmo nome por conta de um mosquito chamado midge. Traduzindo, Myvatn significa lagos dos mosquitos. A Islândia é um país que tem a tradição de não ter insetos, mas o midge nasce nesse lago. Não pica, mas é muito chato e entra em todos os buracos. O lago Myvatn foi formado há aproximadamente 2500 anos, resultado de série de erupções vulcânicas que jogou lava em toda região, derreteu o gelo e formou o lago. E a porra do mosquito veio de brinde!


Outro dia estava pedalando na estrada e uma chuva com vento me pegou no meio do caminho. A temperatura era 1ºC com uma ventania louca. Entrei correndo numa fazenda procurando um abrigo quando chegou o dono. Começamos a conversar e eu,  curioso, perguntei-lhe qual a diferença entre o verão e o inverno nessa terra. A resposta foi simples: no inverno tem mais noite e também temperaturas de 1ºC, só que muitas vezes neva. Conclusão: não tem diferença. Isso é uma loucura, aqui é tudo embaralhado! O tempo não tem lógica.


Dias atrás, estava subindo uma montanha coberta de neve, não havia uma alma humana quando avistei um casal de gansos. Se era delírio ou realidade não sei, mas que merda esses bichos estavam fazendo passeando naquela friaca? E eu morrendo de vontade de estar perto de um aquecedor.


Nessa temporada aqui, percebi que os islandeses tem um comportamento bem diferente do brasileiro. Senti que sexo é um deles, não que aqui seja um tabu, mas a exposição corporal é infinitamente menor do que a brasileira. Imagine, como ter tesão em alguém que fica de calça e camisa de manga comprida 24 h por dia? E a coragem para tirar a roupa aqui nessa friaca para transar, já imaginou?


Talvez as mulheres não saibam, mas quando está muito frio, o pinto do homem fica pequenino. Outro dia estava pedalando e a friaca e o vento eram tão grandes que quando parei para urinar, achei por um instante que o meu tivesse evaporado. Procurei-o dentro da calça de ciclismo como se estivesse procurando uma agulha e o achei a duras penas.


Um dos pontos que me chamaram a atenção no islandês é confiança. A confiança no governo, na previsão do tempo. A host que me recebeu em Reykjavik jogou a chave da casa dela na minha mãe depois de ter me conhecido há minutos. Já o brasileiro é desconfiado de tudo. Não que isso seja ruim, mas sou sempre a favor de um certo equilíbrio. Quando era criança assistia a um desenho de uma hiena e um leão (Lippy e Hardy). A hiena era a pessimista e tudo o que falava era no sentido de que algo de ruim estaria prestes a acontecer. Já leão era o oposto, o sonhador, o aventureiro. Acredito numa relação de equilíbrio como ideal, mas onde está esse equilíbrio? Provavelmente embaixo desses vulcões.


Imagine que hoje faz trinta dias que acenderam a luz 24 h na minha cara e ainda não a desligaram. É assim que eu me sinto. Meu Deus, já troquei o dia pela noite, levantei pra cagar 3 h da manhã e fui dormir 2 h da tarde. Meu relógio biológico foi pro saco faz tempo. Estou com medo de voltar à vida cotidiana.


Hoje também subi em uma cratera de um vulcão. Aqui é cheio delas. Essa era bem grande e não havia nada por lá. Disseram-me que a cratera - Hverfjall - é recente, assim como o lago, só 2500 anos. Pensei quando dizem que estamos velhos para fazer as coisas. Daí imagino, velho em relação a que? Pegando o exemplo desse vulcão, se for em relação à idade do universo a cratera é nova, mas se for em relação a você, a cratera é velha. Que relação estúpida essa de tempo para fazer as coisas que nos impõe. Não há idade pra fazer nada, há sim falta de disposição e um milhão de desculpas para não fazer.


Agora vou dormir, tentar pelo menos, que horas são mesmo? Nem sei, não interessa, estou com sono.

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