Marabá




Sabia que se dormisse bem, estaria disposto pra enfrentar os 109 km até Marabá embaixo desse calorão. E foi isso que aconteceu, deitei às 20h45, já com tudo arrumado para a partida no dia seguinte. Às 4h30 estava de pé, preparei tudo e ainda deu tempo de saborear um cuscus com ovo preparado carinhosamente pela dona da pousada.

Ao sair, Laercio, ciclista de Jacundá, e mais dois parceiros estavam postos com suas bikes para encarar 30 km comigo, até a famosa “tia do pão de queijo”.

Aos poucos o dia foi amanhecendo e ele aparecendo, o Sol. Nasceu do meu lado esquerdo, suntuoso. Apesar de algumas nuvens, a temperatura subiu rapidamente e atingimos nosso ponto de parada 2 horas depois da partida. Na verdade, era uma parada obrigatória. Vários caminhões encostavam para saborear uma culinária muito caseira, que compreendia doces típicos, salgados e sucos de todos os tipos. Aí foi minha despedida dos rapazes, doída mais uma vez, mas logo depois me vi sozinho pelos próximos 75 km até Marabá.

Com ganho de elevação menor do que ontem, consegui desenvolver bem pelos diferentes trechos da PA-150, pegando de tudo pela frente. A estrada variava entre trechos com asfalto recapeado, esburacado e até trechos de terra. O movimento era grande, máquinas e caminhões na pista aumentavam conforme Marabá aproximava-se, devido ao cruzamento de 4 importantes rodovias do interior do país.


Quando atingi Nova Ipixuna no km 53, parei para me hidratar. Logo depois, segui viagem. Na estrada, procurava andar pelo acostamento, quando avistei um ciclista à minha frente. Passei por ele e, ao bater o olho no retrovisor, reconheci meu avô; parei imediatamente. Esperei o simples senhor se aproximar e após uma pequena prosa embaixo do Sol, uma foto para recordação. Impressionante como essas expedições me trazem memórias de todas as épocas.


Sentia que meu corpo correspondia bem, apesar do Sol. Assim, procurei rodar, parando poucas vezes, até para foto. A vontade de girar e desenvolver era imensa quando atingi a entrada de Marabá 20 km antes do meu ponto de chegada. A entrada da cidade foi tumultuada. Fluxo enorme de caminhões vindos por todos os lados, da Transamazônica e rodovias estaduais.

O desafio final era certo, cruzar a imensa ponte rodoferroviária sobre o Rio Tocantins. Em Jacundá, fora orientado a entrar pela contramão, mas não sabia ao certo se seria a melhor opção. Empurrei a bike para acessar uma ciclofaixa estreita que percorria toda a ponte. Nesse instante, um ciclista descia pelo outro lado da pista. Gritei a ele perguntando se era correto o que eu fazia. Aos berros e intercalados por veículos, indicou-me fazer o que havia me proposto. “Tu já estás aqui, né?”. Segui, o fluxo de veículos vinha em minha direção. A ponte era enorme, 2.340 metros e mal conseguia avistar o fim dela. Liguei a luz estroboscópica para sinalizar a todos o meu sentido inverso. Aos poucos, ciclistas no sentido contrário se aproximavam lentamente; a faixa não comportava duas bicicletas. Parei duas vezes, pedindo desculpas e solicitando passagem. Terminei a ponte quando o odômetro marcou 103 km rodados. Dali para o meu ponto de chegada, uma loja de bicicleta eram mais 2 km.

Com o termômetro do GPS marcando 43 graus ao Sol, parti motivado para terminar a etapa em uma loja de bike. Lá deixei a bike para uma lubrificação e manutenção no movimento central. Arrumei um hotel pelas redondezas e minha primeira pergunta ao recepcionista foi: tem ar-condicionado? Chegando ao quarto, senti minha panturrilha ardendo pela falta de protetor solar, esquecido pela manhã. Tomei um banho gelado, impagável!

É hora de descanso, de colocar as pernas para cima nas próximas duas noites e concentrar para o próximo trecho rumo ao Estado do Tocantins.


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