Dia #45: Alta



Apesar do frio, dormi muito bem e nada melhor para esquentar uma manhã gelada em Maze, do que desmontar uma barraca. Devidamente protegido da cabeça aos pés dos ataques de pernilongos, comecei tomando um café quente e preparando todo o equipamento para a partida. Esse movimento incessante do corpo faz parte da estratégia de proteção contra os ataques, uma vez que a ousadia deles chega ao ponto de me picar através das minhas luvas.


Parti para o trecho final de setenta quilômetros até Alta. Estava bem fisicamente e incrivelmente melhor do que ontem.


Logo na saída, um bate-papo no meio da estrada com um ciclista finlandês também seguindo para Alta. Logo depois, separados pelo ritmo individual de cada um, o destino voltaria a nos cruzar em uma cafeteria no meio da estrada, apenas vinte quilômetros depois. Era hora de sentar, tomar um café, esquentar um pouco e curtir um extenso bate-papo sobre experiências mútuas na Escandinávia.


Hora de partir novamente! O dia permanecia nublado, com constante garoa fina e pista molhada quase que todo o tempo. Saí bem protegido, segunda pele, dois corta-ventos e a capa de chuva, não queria passar frio, mas confesso que é quase impossível.


Aos poucos, a Noruega que era um mar de tobogãs entre montanhas e lagos, começou a mostrar seu lado mais raiz. A estrada estreita, com banheiros e pontos de descanso a cada vinte quilômetros, começou a beirar imensos rios com corredeiras em uma espécie de mini cânion. Logo percebi que estava no topo de uma serra, quando avistei uma placa sinalizando oito quilômetros de descida à oito por cento de inclinação. Felicidade ao descer ladeira? Nem tanto! Os quatrocentos metros de altimetria ribanceira abaixo foram gelados e o vento ainda parecia encontrar espaço para penetrar pela couraça que construí. Confesso que uma experiência dolorosa, não fosse pela exuberância do lugar.


Continuei meus últimos vinte quilômetros pela mesma via, dessa vez plana e por um um asfalto impecável, até Alta.


Cheguei a Alta em lágrimas de gelo, fazia seis graus no fim de tarde e o pequeno movimento de uma cidade de menos de dezoito mil habitantes, impactava diante do inóspito mundo de dias anteriores. Antes, olhava Alta no mapa e ela me parecia um sonho distante, talvez intocável. Entretanto, sempre geri essa esperança de poder alcançá-la, de reencontrar o mar. Hoje, estar aqui, a um passo de Nordkapp meu sonho supremo, soa-me também uma grande conquista.


Nesse momento, as pernas latejam, o corpo pede descanso. E a cabeça? A cabeça não para, não para de planejar, de organizar. Daqui alguns dias encerra-se a etapa sete de 2019 do Projeto Giraventura iniciada em 23 de dezembro de 2018. A única de todas as quatorze etapas, que foi dividida em duas. Há algo especial nela. Aqui não é simplesmente o meio dessa história, mas a abertura para novos pensamentos, novas ideias, para uma maioridade de um projeto que “só está começando”.


Eu sei que Nordkapp está logo ali, jamais diria isso há um mês. Talvez daqui a alguns dias, Nordkapp não seja mais um sonho, seja uma realidade e essa jornada entre para a história como um desabrochar de uma paixão pelo que realmente tornar-me-á uma pessoa feliz nos próximos anos da minha vida.

30 visualizações2 comentários

Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

® 2020 Giraventura Consultoria