Dia #44: Maze


Choveu a noite toda, mas de manhã parou. Acordei às 7h00, olhei para o céu nublado e aparentemente não havia chance de chuva. Um amigo brasileiro e ciclista, ..., que mora em Oslo há anos, muito gentil, deu a dica do site. Achei muito preciso e útil, obrigado ...

Hoje, a ideia da etapa era chegar até o povoado de Maze, para isso, setenta quilômetros pela frente. Aparentemente não parece muito quilometragem para quem, há algumas semanas atrás, estava rodando uma média de cem quilômetros por dia. Entretanto, há dias que se sente a estafa. Não interessa se eu dormi bem, comi bem, quando ela tem que aparecer, aparece e os setenta quilômetros transformam-se em um calvário.

Kautokeino estava apenas oito quilômetros do meu camping. Um lugarejo simples, nada de especial. Parei no mercado para fazer umas compras para a etapa. O gentil gerente viu minha cara de gringo e vestimenta atípica, recebeu-me oferecendo um café: “é cortesia, viu?”. Fiz minhas compras e fui à cafeteria onde havia uns homens conversando. Tentei prestar atenção no papo, pelo menos no assunto, impossível.

Estou achando a Noruega muito simpática, tanto quanto a Suécia. Dá a impressão que são como um casal que se ama, mas que preferem viver em casas separadas, vivendo uma liberdade paralela. Fui muito bem recebido até agora. Os mais velhos têm grande dificuldade em falar inglês, alguns, nem sabem.

Hoje na estrada, vários motociclistas ultrapassaram-me rumo ao norte. Nesse momento, um carro que vinha logo atrás passou buzinando para mim com o motorista colocando o braço para fora e gritando algo. Encontrei-o mais à frente parado na cabeceira de um rio. Gritou em inglês, “força”, Nordkapp, assim que passei. Foi bom ter ouvido isso naquele momento, porque força era o que estava me faltando hoje.

A Noruega é um imenso tobogã entre rios e lagos. Os pinheiros da Finlândia e Suécia sumiram e deram lugar a uma densa vegetação entre colinas e montanhas. O que não falta por aqui é água. São rios, lagos e cachoeiras, um seguido do outro. Os povoados são mais espaçados, a estrada torna-se muito cansativa para pedalar.

Vez ou outra, aparecem pequenos lugarejos com poucas casas. Difícil encontrar alguém passando por aqui. Movimento mesmo, só na estrada; muitos caminhões, carros e traileres indo e voltando.

Sabia da existência de um camping na vila de Maze, setenta quilômetros de onde estava. Escolhi parar aqui para deixar para amanhã os 75 km faltantes até Alta.

O camping é grande, mas não tem ninguém. Vários traileres espalhadas e algumas cabanas, tudo vazio. Por cem coroas norueguesas, montei minha barraca com direito a um banho de cinco minutos com temporizador por ficha. Fiquei bem à vontade, montei minha barraca ao lado de um tipo de uma lareira portátil. Fui atrás de lenha, fiz fogo para me aquecer e preparei meu jantar.

Completamente encapado da cabeça aos pés contra os insetos, vi minha mão ser picada na única abertura que minhas luvas tinham. Comprei uma tela mosquiteira para colocar na cabeça, ajuda muito, mas se ela fica muito colocada no rosto, eles pousam sob a tela e me picam através dela. Aqui, a família de insetos é variada e tem para todos os gostos; pernilongos e muriçocas são os que mais importunam. As muriçocas são tão pequenas, que uma ou outra consegue passar através da tela da barraca. Para guardar meus equipamentos dentro da barraca, abro uma fresta pelo zíper e vou colocando aos poucos para dentro. Depois de tudo ajeitado, chega a minha vez de entrar. Respiro fundo, abro todo o zíper e em menos de três segundos estou dentro da barraca para não sair mais. É uma sensação de alívio estar em um lugar protegido deles.

Lembro que em Extremos do Mundo, parte um, o vento que me importunava. Olhava para fora e via aquele vendaval frio e pensava: ai, meu Deus, força para enfrentrar isso. Na parte dois de Extremos do Mundo, o vento deu lugar aos insetos. Quanto mais norte eu pedalo, mais eles aparecem. Tentar ter uma harmonia com esses detalhes da natureza, talvez seja um dos maiores desafios da etapa sete.

Amanhã, chegarei em Alta, nem eu acredito. Antes de partir, olhava Alta no mapa e pensava: nossa, como isso é longe. Pois é, estou pertíssimo e, para encerrar a etapa sete do Projeto Giraventura, teremos mais alguns dias pela frente. Força, fé e coragem nessas últimas poucas centenas quilômetros que me faltam.

Hoje, saudades da minha mãe!

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Nestor Freire, engenheiro e cicloviajante

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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