Dia #41: Muonio


Dia completamente doido. Ontem, chuva e frio, dormi enrolado no saco de dormir com todos os meus casacos. Hoje pela manhã, fui agraciado com o Sol na minha cara às 3h45. Levantei, achei que fosse 7h00, virei de lado, coloquei uma meia nos olhos e capotei de novo. Porém, o calor estava grande, comecei a suar dentro do saco de dormir; já eram 5h00, arranquei tudo, fiquei de cueca, tentei dormir de novo e não consegui mais, desisti e levantei.


Em menos de duas horas minhas coisas já estavam todas prontas e parti do camping por volta das 9h30.


Apontando sentido norte, meu objetivo era pedalar pelo menos 87 km, pois assim sobrariam 320 km para Alta, ou seja, uma média de oitenta quilômetros por dia nos próximos quatro dias, acho razoável.

As estradas da Finlândia são muito bem cuidadas, até mais do que na Suécia. Pedalo percorrendo estradas paralelas às principais, então geralmente são estreitas e cheias de renas.


Comecei o dia encontrando uma família com quatro renas. Estavam no meio da estrada e quando me viram, fugiram para o pasto. Parei, observei, vieram até mim, atravessaram a estrada e desapareceram no matagal. Depois disso, veio uma sequência de renas pela estrada. Elas não se importam com carros, com motos e fazem do asfalto uma espécie de corredor de duas casas. E assim foi a dinâmica do meu dia, estradas e renas pelo caminho.

Dividi minha jornada a Alta, na Noruega em seis fases. Teria uma média de uns 85 km por dia, mas essa quilometragem nunca é precisa. Às vezes, há um camping antes, outras vezes depois. Ainda não me senti à vontade para fazer acampamento selvagem na Finlândia. Aliás, ainda não encontrei ninguém fazendo acampamento selvagem por aqui. Segundo um motoqueiro norueguês que encontrei hoje pelo caminho, as regras daqui são diferentes da Suécia e Noruega, onde camping selvagem é permitido.


Ainda pela jornada do meu dia e já bem cansado depois de 92 km, vi uma placa onde informava um restaurante e um hotel. Era uma estradinha; nela entrei. Logo à minha direita, avistei uma kåta, fui até ela - ainda desejo dormir em uma algum dia. Nela, havia uma mesa e cadeiras do lado de fora e um bonito rio passando à frente. Entretanto, o lugar era estranho e perto da estrada, não me senti à vontade para acampar selvagem. Então, resolvi ir ao hotel, quatrocentos metros à frente. Chegando ao local, não era um hotel propriamente, havia umas cabanas. Um senhor de bicicleta veio conversar comigo e me pediu setenta Euros para passar a noite. Achei um absurdo, muito caro e perguntei a ele sobre algum camping próximo. Disse-me que encontraria um quatorze quilômetros oeste, em Muonio. O problema é que se eu pedalasse até esta vila, teria que pedalar de volta no dia seguinte, uma vez que o meu caminho a Alta virava exatamente onde eu me encontrava. Minutos de reflexão e resolvi encarar; que dureza, mãe do céu. Duas montanhas enormes, onde esses quatorze quilômetros foram arrastados, doídos.


Cheguei ao camping com o odômetro marcando 107 km. Paguei dez Euros para montar a minha barraca, usar a cozinha e tomar um banho. O camping era grande e havia uma kåta com algumas mesas, onde também podia cozinhar. Foi nela que preparei meu jantar antes do banho, tamanha a minha fome.


Fui deitar já por volta das 21h30 com as pernas quentes. Alongava-as dentro do saco de dormir para aquecer um pouco.

O sol não baixou, mas a noite esfriou, mas já dentro da barraca, peguei rapidamente no sono.

Nestor Freire, engenheiro e cicloviajante

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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