Dia #40: Kolari


Foi difícil levantar hoje, estava frio, choveu à noite, mas dormi muito bem, deu para descansar as pernas, o corpo. O sol raiou por volta das 10h00; era sinal para partir.


Os dias vão ficando cada vez mais difíceis, às vezes, tenho a impressão que ficam mais longos. Aos poucos, um cansaço generalizado vai tomando conta de mim. Não sei o porquê, talvez o grande objetivo? Esse desejo de alcançar Nordkapp acabou virando obsessão; se não tivesse mais bicicleta, talvez comprasse uma mochila e continuaria a pé até chegar lá.

Hoje, pedalei por uma via muito inóspita com poucos aclives e beirando o Rio Tornio quase que o tempo todo. À minha esquerda, do outro lado do rio, continuava a avistar as casinhas marrons com esquadrias brancas, um sinal da Suécia, meu passado mais recente.


O bem-vindo da Finlândia foi marcante; começou em uma ciclovia por dez quilômetros, que em seguida, virou uma estrada pequena, de asfalto bom e pouquíssimos carros. Avistei várias famílias de renas no caminho. Algumas delas tinham o chifre quase do tamanho do corpo, impressionantemente grande. Elas observavam-se de longe, viam-me aproximando, encaravam-me e se afastavam. Geralmente, entravam no floresta de pinheiros ou corriam às margens do rio. Num certo momento, avistei uma rena solitária, assim como eu; andava sozinha pelo meio da estrada, parecia perdida. Parei a poucos metros dela para fotografá-la. Ela também parou, encarou-me e começou a correr para o norte pela estrada, justamente meu caminho. Fui a seguindo por um bom tempo, mas essa não se escondeu de mim. Ultrapassei-a, passou ao meu lado e depois ficou parada olhando-me pedalar ao norte. Morro de rir, uma pedalada com plateia. Sabe, fiquei mais aliviado quando avistei as renas, pois notei que haviam outros seres vivos pelo caminho além de mim.


A solidão dessa floresta realmente mexe comigo. Não sei explicar, mas sinto um ar sombrio nela, principalmente quando se acalma e não há vento. Há um poder de sedução fora do normal e parece que, às vezes, ela começa a controlar meus pensamentos; passa de tudo um pouco pela minha cabeça: super-heróis, vilões, extra-terrestres, meus pais vivos, animais de todos os tipos e revoltas, muitas revoltas. Xingo e tiro barato de mim mesmo, do meu jeito. Escandalizo pessoas que não tem a menor importância na minha vida, chorando de rir de suas ideias fracas e preconceituosas. É tudo misturado e só acaba quando eu ponho um ponto final na etapa. Ainda assim, parece que tudo está me esperando novamente amanhã. Acho que é como se fosse uma sessão de terapia com a natureza.


Alcancei a vila de Kolari no quilômetro 81, quando o céu escureceu. Avistei uma kåta, um espécie de uma cabana gigante que os suomis usam para fazer reuniões e se aquecer no inverno. Fui até ela justamente quando a tempestade chegou. A porta estava aberta, entrei com a bike dentro. Estava imunda, havia teias de aranhas. Esperava a chuva passar, pensando o que iria fazer da minha vida, ouvindo as gotas de água baterem em sua gigante chaminé central. Por um instante, pensei em montar a minha barraca aqui dentro, mas meio de sua escuridão, um rato passou ao meu lado e foi o suficiente para decidir que ali não daria para montar acampamento, muito menos cozinhar.


Ainda sob uma garoa fina, mas já com a temperatura bem baixa, decidi sair de lá e procurar um camping. Achei um, perto da estrada, e por ele fiquei.


Não tem nada nessa vila, não dá nem para sair e dar um rolé. Há um posto de gasolina, um mercado e algumas casas por onde passei. Parece uma vila fantasma, também não há pessoas e o camping está vazio.


Montei minhas coisas e fui para um dos momentos mais esperados do dia, o banho quente. Aqui as torneiras possuem temporizador para economizar água, então o banho, apesar de morno é com jatos de água espaçados. Fico imaginando como eles adaptam-se a isso quando a temperatura está trinta graus negativo.


Aqui na Finlândia eu ganhei uma hora a menos em relação à Noruega e Suécia. À princípio, não faz diferença, mas na verdade eu acabo encaixando instintivamente meus horários dentro desse fuso. Hora de levantar é 7h00, de partir 10h30 e de dormir 22h00. Não sou criterioso com essa rotina, mas meu corpo e mente são.


Não precisamos ser muito exigentes porque acabamos nos adaptando com o que temos e, o que tenho hoje, faz-me feliz!

47 visualizações2 comentários

Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

® 2020 Giraventura Consultoria