Dia #28: Sundsvall


Ontem, no final da noite, fui a uma pizzaria pertinho do camping para experimentar a pizza sueca. Cheguei lá e perguntei se faziam meio a meio; o atendente disse que sim. Por 95 coroas, comprei uma pizza e um refrigerante, aproximadamente nove Euros. Escolhi o sabor, meia marguerita e meia atum, quis dizer “tuna”, em inglês. Mas o que é “tuna”, perguntou-me o atendente. Não sabendo como explicar direito, assim tentei: um tipo de peixe? Como também é um palavrão em inglês, fiquei embaraçado por um momento, mas não, depois pensei, o cara não sabe nem a definição natural de “tuna”, quanto mais a do palavrão. Relaxei e continuei: são peixes do oceano, vivem em regiões tropicais, blá, blá, enfim, o que teria mais para explicar a respeito? Dessa maneira, foi feito o pedido. Aguardando ansiosamente na mesa, eis que surge a pizza: meia marguerita, meia camarão. Para os que não sabem, sou alérgico ao artrópode e comendo isso, o caminho para Nordkapp passaria necessariamente antes pelo hospital. Nem reclamei, só me dei o trabalho de tirar os camarões, um a um, antes de devorar a pizza de uma vez. No final, fiquei sem a proteína da noite, paciência; voltando ao camping, terminei com um ovo.


Dormi muito bem à noite, capotei, nem me lembro, entrei na barraca, apaguei.


Acordei hoje cedo, saí da barraca, olhei para o céu e o tempo estava nublado. Ufa, empolguei, menos mal porque o calor de ontem foi cruel. Preparei minhas coisas, tomei um café da manhã fraco pela falta de suprimentos, mas parti mesmo assim. Eram 85 km que separavam esse camping de Sundsvall, a cidade onde queria chegar.


Depois de consultar o maps.me e o GPS, ambos traçaram-me a mesma rota, um tanto estranha, pois fazia eu voltar dez quilômetros à estrada até estive ontem. Fiquei meio puto, pois rodaria vinte quilômetros a mais em dois dias, mas paciência.


Depois do quilômetro vinte, estava sentindo-me estafado pelo fraco café da manhã. Nesse momento, com o céu nublado à minha frente, senti os primeiros pingos de chuva, leves. Aos poucos, a chuva tornou-se uma garoa. Pelo quilômetro quarenta, adentrei a uma inesperada estrada de terra e foi nessa hora que a chuva apertou. Com pneu liso para asfalto, estava seguro que a estrada de terra não se alongaria muito, ledo engano; foram vinte quilômetros de terra. Nesse momento, a temperatura baixou bruscamente, chegando a nove graus, um impressionante amplitude térmica de trinta graus de ontem para hoje. Meia hora depois, quando passei por uma região onde havia algumas casas e traileres, o céu escureceu de vez e, dá-lhe água. Em um desses traileres, um abrigo, uma espécie de barraca com laterais abertas. No centro dela, uma mesa com cinco cadeiras. Fiquei no cantinho protegendo-me, tremendo de frio e rodeado por pernilongos. Sem nada o que fazer e congelando, resolvi cozinhar. Tirei todos meus apetrechos culinários e lá fui eu fazer um macarrão com atum, aquele mesmo que não comi ontem. Completei o almoço com um café muito forte.


Com a digestão feita e devidamente energizado, senti que fosse o necessário para completar os últimos trinta quilômetros. Embaixo de uma chuva torrencial, muito frio, mesmo encapado, meu corpo começou a molhar por dentro. À medida que me aproximava de Sundsvall, minha impressão era de que a cidade ficava mais longe; cada quilômetro pedalado virou um sufoco nesse final. Para completar a saga, enquanto o céu desabava, carros e caminhões passavam a meu lado jogando-me um spray gelado no rosto.


A apenas cinco quilômetros da cidade, pedi desesperadamente ao GPS uma indicação de “lodging”. Apontou-me um a 1,5 km de onde estava; para lá, fui. Cheguei ao balcão, apresentei-me à recepcionista que quase chorou ao ver-me naquele estado. Tremendo de frio e com a voz rouca, pedi a ela o quarto mais barato do hotel; nesse momento só precisava de um teto, seco. O que custava 739 coroas suecas no Booking, saiu para mim por quinhentas coroas com café da manhã como cortesia.


Cheguei ao quarto, tudo molhado, nada restou seco. Imediatamente, fui ao banho com receio de me adoentar. Ainda assim, depois do banho, saí a pé embaixo da chuva atrás de um supermercado, achei. Voltei, comi, lavei minhas roupas e finalizei o dia.


Concluo que o planejamento serve apenas como guia; planejamento demais atrapalha. A vida possui muitas variáveis, se não soubermos ter o mínimo de jogo de cintura e perseverança, mesmo com pleno planejamento, o fracasso é eminente.


Hoje, vivi mais um capítulo de “vire-se com o que você tem e faça dele o seu melhor”.

Felizmente, tivemos um final feliz! Boa noite!

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Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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