Dia #26: Ljusne


Acampamento selvagem nesse calor é complicado, mas eu consegui sobreviver à última noite. Tinha um pouco mais de 1,5 de água para tudo, cozinhar, escovar os dentes, beber, passar um pano no corpo. Entrei no saco de dormir grudando e com as roupas que usei durante o dia completamente ensopadas.

Em Extremos do Mundo, parte um, cheguei à ficar três dias sem banho e não me incomodei tanto. Primeiro porque o ar da Patagônia é seco, então, suava muito pouco; diferente daqui. Verão sueco é verão tropical; altas temperaturas, pernilongos e muito, mas muito calor.


Levantei por volta das 7h30 e estava com necessidade fisiológica número dois. Pois é, cheguei a cavar o buraco para o feito, mas em pleno sábado, o movimento de ciclistas e corredores era grande; não consegui. Saí assim mesmo, entalado e peidando por todos os orifícios. Tentei esquecer, fingir que não era comigo e funcionou durante um tempo.


O GPS mandou-me para uma trilha oposta da que peguei ontem. Foram dois quilômetros de mata fechada, atravessando pequenas pontes e tropeçando no mato alto. Que belo começo de dia, saí da trilha mais ensopado. Em seguida, peguei a estrada, estava fervendo. Era o inferno na Terra. Parei em um supermercado em Gävle para comprar uma garrafa d’água, antes de entrar definitivamente no caldeirão. Tinha comida razoável, mas estava até receoso de comer e a situação do número dois piorar, tinha prometido-me o autoengano, lembra?


Peguei uma estrada interminável. Não havia povoados, lugarejos, somente estrada a quarenta graus. É muito extremo pedalar nessas condições, o asfalto borbulha, não há sombras. Procurava concentrar-me ao máximo, manter o ritmo, mas a dificuldade era enorme. Depois de uns trinta quilômetros, comecei a sentir uma brisa vinda do Mar de Bótnia, que ao mesmo tempo que me refrescava levemente, empurrava-me para trás. Ontem, estava na expectativa de reencontrar o mar, mas o calor desconstrói as coisas; à medida que o dia passava, a sensação térmica aumentava passando dos 43 graus no GPS.


No quilômetro sessenta, avistei o vilarejo de Axmarbruk onde indicava um restaurante; hora de procurar uma sombra. Chegando ao local, dei de cara com uma pequena marina e um restaurante muito granfino, como diria minha mãe. Na verdade, eu estava doido para comer um salgado, mas na hora que eu vi o estilo do copo de vinho em cima das mesas envolto por guardanapos estampados com pétalas de flores, reparei que eu não estava adequado ao padrão do ambiente. Sujo, suado e fedido, olho para o meu lado direito e eis que surge a solução de todos os meus problemas: um WC, não resisti. À princípio, parecia miragem, mas assim que adentrei, ele era decorado com pinos secos, chique. Tinha pia, sabão para lavar a mão, papel higiênico, toalha e a banca da privada brilhava com o reflexo da luz do teto, e naquele momento era meu, só meu. Sentei e foi, meu Deus. Logo após o feito, olhando para a obra de arte por mim construída, fiquei pasmo de como pude pedalar sessenta quilômetros com todo aquele peso dentro de mim. Tão logo saí, a garçonete vem ao meu encontro admirada, talvez, com meu ar de felicidade. Mais leve, a fome bateu, estômago vazio. Voltei à bike que fervia ao sol, peguei o que tinha de comida e na maior cara de pau, voltei aos fundos do restaurante, sob uma sombra que dava de frente para o mar; lá fiquei saboreando meu pão com geleia e queijo e contemplando o Mar de Bótnia.


Trinta minutos depois, mais relaxado e com o estômago cheio, voltei à estrada. Avistei um camping no mapa a vinte quilômetros de onde estava. Agora mais leve, a pedalada só não rendeu mais porque a temperatura chegou aos 42 graus.


Tinha água suficiente, concentrei cheguei ao camping. Ia acampar, mas a dona simpatizando com a minha saga, ofereceu-me uma cabana simples pelo mesmo preço. Não tinha banheiro, cozinha, só uma cama e um frigobar; aceitei imediatamente. Arranquei minha roupa, fui ao banho, lavei tudo. Fiz minha comida padrão e depois fui contemplar um lindo pôr do sol, prêmio por um dia tão difícil.


Há momentos na vida que queremos estar só. Nascer, morrer são momentos feitos unicamente para se viver na solitude. Para mim, ir ao banheiro faz parte desses momentos. Não quero plateia, aplausos, ao contrário, quero paz, pois a conquista é somente minha depois de perceber que meu corpo funciona dentro dos padrões. Memórias de infância: uma vez quando criança, no banheiro da escola que estudava, li na porta algo significativo, da mais profunda sensatez, que carrego até hoje: “cagar é uma sensação profunda, a merda bate na água e a água bate na bunda”.


Aleluia, pronto para outra.

Nestor Freire, engenheiro e cicloviajante

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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