Dia #23: Estocolmo / descanso

Atualizado: 12 de Set de 2019


Achei um canto para ficar em um hostel bem em conta em Estocolmo, uns três quilômetros do centro. O lugar faz referência a um navio, até então aparentemente algo chique, apesar que pelo preço dava para desconfiar. Os quartos são minúsculos, não tem janelas e tudo é muito pequeno. A minha cama é um beliche, mas como não tem ninguém no quarto comigo, a cama de cima dobra, deixando um espaço de uns quarenta centímetros da que durmo. Na noite passada, dei duas cabeçadas e uma joelhada para vocês terem uma ideia. Por incrível que pareça, a minha barraca é mais espaçosa e confortável.


Hoje, tirei o dia para soltar um pouco as pernas, já cansadas depois do fim da terceira fase da expedição.


Fui andar um pouco pela cidade, peguei o metrô e fui conhecer a cidade velha que fica em uma das pequenas quatorze ilhas, que são rodeadas pelo lago Mälaren, que por sua vez, encontra com o mar Báltico. É uma cidade cheia de vida, museus, teatros, vida cultural a todo vapor. Praticamente passei todo o dia na cidade velha que é muito charmosa. Entrei em sebos de vinis, lojas de roupas retrô e no final acabei assistindo a um casal de organistas tocando dois órgãos seculares em uma igreja germânica. Uma cidade muito cara, assim como o país, então mantenho minha política de viagem de compras em supermercados porque restaurante aqui, nem pensar.


Finalmente, investi numa barraca nova. Leve, seu tecido parece papel e escorrega na mão ao manusear. O restante do dia foi dedicado aos preparativos para a continuidade da expedição. Só para lembrar, são 41 etapas divididas em sete fases, onde a cada término de fase, propus-me um dia de descanso. Amanhã entraremos na quarta fase, apontando para o norte, cidade de Umeå, 731 km daqui. Estou imaginando que nove dias sejam suficientes para cumprir essa fase, sem o desgaste que tive na terceira, onde girei em média de cem quilômetros por dia. Dessa vez, quero ir com mais calma, com menos afobação. Apesar de um prazer enorme ao término de cada etapa, à medida que evoluo, vou sentindo mais o caminho e tendo uma espécie de simbiose com ele. Em biologia, simbiose é a associação entre duas espécies diferentes com benefício mútuo e é mais ou menos isso que acontece comigo.


Nessa fase científica do Projeto Giraventura, cada vez mais sinto o contato do meu ser com o nosso planeta. Chegar aos extremos no mundo no mesmo verão tem um significado muito especial para mim. Um deles, é que atravessarei o Círculo Polar Ártico na quinta fase no dia 6 de agosto, em homenagem à data do nascimento de Andy Warhol. Warhol, além de ser um ícone cultural para mim, principalmente por sua influência em uma das bandas que mais admiro, o Velvet Underground, possui uma frase que tem muito a ver com a fase científica do Projeto Giraventura: “They always say time changes things, but you actually have to change them yourself.”


Dessa maneira, sonho em cruzar o Círculo Polar com a ideia de Warhol na cabeça, ou seja, nós somos donos de nossas próprias mudanças e, nesse caso, o tempo pode ser nosso amigo, mas também nosso inimigo. Pragmático, eu sei, mas essencial para vivermos uma vida com menos culpa e com mais realidade.


Meu mentor nessa fase, Toni Ros, escritor catalão e amigo, que conheci em 2014, etapa dois do Projeto Giraventura, Caminho de Santiago, disse-me uma vez que os extremos do mundo tocam-se. Essa ideia cativou-me e quis colocar em prática juntar esses dois extremos em um mesmo verão consecutivo. Mas para que? Qual a função disso, eles perguntariam. Eu explico a eles: viver dois verões seguidos no mesmo ano em cada hemisfério é algo inédito; esses dois verões são um sonho para mim, apenas um sonho, nada mais.


Ainda concluiria citando Shakespeare em Sonhos de Uma Noite de Verão, que diz assim:


“Há quem diga que todas as noites são de sonhos.

Mas há também quem garanta que nem todas, só as de verão. No fundo, isto não tem muita importância.

O que interessa mesmo não é a noite em si, são os sonhos. Sonhos que o homem sonha sempre, em todos os lugares, em todas as épocas do ano, dormindo ou acordado.”


O meu verão chama-se Nordkapp.

Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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