Dia #22: Estocolmo

Atualizado: 12 de Set de 2019


Às 7h00 estava de pé e já preparando as coisas para sair quando Anne veio chamar-me para o café.


Ficamos mais de uma hora conversando e eu a explicando detalhes do Projeto Giraventura. Ela pediu-me para tirarmos uma foto juntos para divulgação no site do B&B.


Na preparação da minha câmara para a foto oficial, ficamos aguardando o marido dela chegar e durante o papo, falei a ela que estava muito grato pela hospitalidade e carinho. Emendei a história do meu pai antes de falecer. Anne olhava-me com os olhos arregalados quando iniciei a narrativa. Contei a ela que meu pai, já no seu leito de morte, chamou-me:

-Filho, eu queria lhe agradecer por tudo o que você faz por mim, assim disse ele.

-Não pai, não precisa agradecer-me porque tudo o que faço é com amor, respondi.

-Precisa sim, agradeça a todos que cruzem o seu caminho, retrucou em voz baixa.

Nisso, vi os olhos azuis de Anne brilharem na minha frente; engasgou repentinamente, não resistiu e se pôs a chorar.


Nesse instante, o marido dela apareceu e, imediatamente, fui eu fui me explicando. Falou para mim que Anne já lhe contara na noite anterior, a minha história de sonhos e foco nesse projeto. Bem, passado o pequeno tumulto, paramos em frente do gazebo e tiramos a foto oficial.


Depois disso, coloquei minhas coisas na bike e parti com um certo gosto amargo. Sueco é um povo muito na deles e, conseguir arrancar um sentimento assim deles, creio que não seja uma tarefa fácil. Saí de lá refletindo sobre a boa-fé, que segundo a filosofia,

a qualidade daquele que fala com sinceridade e age com retidão. É o contrário da mentira, da hipocrisia, da duplicidade, enfim, da má-fé. A boa-fé é uma virtude moral, e como tal pode-se dizer que é o amor ou o respeito à verdade. É difícil sentir a boa-fé em pessoas que conheço há horas. Quando vi Anne pela primeira vez, confesso que tive esse sentimento inicial; não estava errado.

Os 125 km que separavam Tuna de Estocolmo ficaram pequenos depois desse banho de hospitalidade e generosidade. O dia estava nublado, às vezes parecia que ia chover, mas não aconteceu.


A primeira cidade à frente era Linköping. Tudo lindo e bem cuidado. Passei pelo meio da cidade pegando sentido Nordeste, apontando para Estocolmo.


Aos poucos, meus suprimentos foram se acabando, até que parei pela primeira vez em toda viagem para almoçar em um quiosque de estrada. Comi batata frita, salada e nuggets por 95 coroas, dez Euros. Fico sempre alerta do que estar comendo, tenho medo de passar mal, ser intoxicado. Peixe, nem pensar. Engraçado que já passei por mais de uma cidade com o nome de Östra. Quando vi esse nome pela primeira vez, achei que fosse o prato do restaurante, era o nome da cidade, sem comentários. Sabe, se teve uma vez na minha vida que vi a morte vindo me buscar, foi em uma intoxicação de ostra em Bertioga, não östra, santa ignorância sueca. Aliás, que idioma. As sonoridade das letras não representa o nosso idioma. Quando vejo uma placa na rua, tento interpretar pelo desenho, quando tem, pela palavra, impossível. É pior que alemão. Um certo dia, aguardava um semáforo, quando um sujeito com o cachorro começou a conversar comigo. Falei para ele em inglês que não falava sueco. O sujeito simplesmente me ignorou e continuou o papo como se nada tivesse acontecendo. Nesse momento, falei em voz bem sua alta: “I only speak English!”. Por que achamos que gritando as pessoas vão entender melhor? Também não sei, mas pelo menos o sujeito se assustou e partiu.


Ufa, voltando a estrada, o percurso foi bem cansativo. Achei uma nova posição pra bunda em cima do selim, meio de lado. O que eu já estou assado, nem sei mais. Parece que criou uma armadura em volta do cu, mas mesmo assim dói se ficar muito tempo na mesma posição.


A chegada em Estocolmo foi triunfal. Assim que cruzei a ponte, desabei em choro, não sei muito bem o porquê. A cidade é linda e foi aparecendo para mim aos poucos, nos últimos dois quilômetros. Inimaginável que isso é a capital da Suécia. Achei mais simpática do que Copenhagen.


Bem, hora de dormir, descansar e preparar amanhã para na quinta- feira partirmos para a quarta sequência de nove etapas consecutivas, desse vez, apontando norte pela costa sueca. Boa noite!

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Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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