Dia #11: Seekamp

Nada como uma noite bem dormida. Levantei às 7h00, como de costume, olhei pela janela e o tempo estava nublado. Dez minutos depois desabou um temporal; loucura sair para pedalar assim. Dei um tempo e fiquei na janela apreciando a chuva cair e pensando como somos mimados. Se está chovendo, reclamamos; se faz sol, está quente; se faz frio, é porque está frio. O que fazer então? Iria ficar ali esperando a chuva passar? Faltava-me algo, um incentivo, algo para alegrar meu dia nessa manhã chuvosa de sexta- feira. Faltava-me um “light my fire”, como diria Jim Morrinson. Olhei para o prédio do outro lado da rua, uns trinta metros de distância e o incentivo estava lá: um bebê, acho que de uns dois anos, talvez. Engatinhava de um canto para o outro na sala. Fiquei apreciando a cena através da enorme janela, enquanto a mãe dormia numa cama bem ao lado. De repente, ficou de pé na vidraça e olhou para mim; acenei despretensiosamente e para a minha surpresa, acenou de volta, abrindo um lindo sorriso. Foi o bastante para eu pegar fogo. Comecei a pular e acenar com os dois braços enquanto a criancinha morria de rir. Aquilo me deu uma injeção de ânimo inimaginável, parecia que havia tomado um energético.


Fiquei todo animado; comecei a arrumar minhas coisas e ia sair debaixo de chuva mesmo, foda-se. Felizmente, aos poucos, a chuva foi diminuindo. Tempo suficiente para descer minhas coisas até a bike e partir rumo a Eucin, 105 km ao norte.


Cruzei toda Hamburgo; cidade gigante, impressiona. Aos poucos, fui voltando às estradas vicinais que levam às vilas.


A rotina voltou, cruzar fazendas e povoados alemães entre plantações de trigo. Estava me sentindo bem, nem parecia que passei tanto estresse ontem na chegada a Hamburgo.


O céu começava a escurecer novamente quando mais ou menos no quilômetro quarenta, a bike começou a ficar estranha. Pois é, pneu furado novamente; sempre o de trás, o mais difícil de trocar. À minha frente, um ponto de ônibus vazio; lá, parei. Tirei tudo da bike, virei-a de ponta cabeça e saquei a roda. Nesse momento, desabou uma tempestade. Poderia dizer que não existiria melhor momento para um pneu furado. Se minha cota de pneu furada está em dia, esse veio em boa hora. Senti que estava na sintonia e energizado pelo bebezinho da manhã. Fiz tudo com calma, remendei a câmara e resolvi almoçar apreciando a chuva passar; parecia um momento só meu, de sincronia com tudo. A chuva passou, continuei.


Pedalei mais, passando por vilarejos maiores, além de povoados. O objetivo da etapa era chegar a Eucin, quando entrei em uma estrada sem ciclovia, coisa rara, por volta do quilômetro setenta. Faltavam mais 35 km. Entretanto, nesse momento, algo começou a me chamar a atenção na estrada. Fazendas, vilarejos pequenos, parecia que já havia estado aqui. A paisagem bucólica começou a me trazer a memória da estrada que pedalei entre Puerto Natales e Punta Arenas, no Chile, Extremos do Mundo, parte um. Parece que revivia os momentos do primeiro desafio; fiquei arrepiado. A estrada começou a mudar de novo, passando no meio de árvores a se perder de vista. Veio então, a memória da jornada do Meridiano Verde de 2017. Nesse momento, não resisti, desabei a chorar. Era a fase dois, científica, dando suas caras e me lembrando que ela faz parte desse momento, sim. Comecei a pedalar mais lento, não queria terminar de jeito nenhum, não queria chegar a Eucin, minha última parada na Alemanha; achei que deveria por ficar aqui. À frente, uma fazenda com um camping à beira de um lago; parei. É aqui que vou passar minha noite. Não queria outra coisa, apenas viver esse momento, essas recordações.



Confesso que entrei na Alemanha com o pé atrás. Não falo alemão, acho a sonoridade dessa língua bem esquisita, também achava que fosse encontrar um povo com um ar de superioridade. Percebi nesse pouco tempo que eles têm acesso à educação, à tecnologia, são o que são, ponto, mas são humanos, como eu. Fazemos julgamento antes de conhecer. Por aqui, fui carinhosamente recebido; agora faltando apenas um dia de terminar minha jornada por essas terras, meus olhos enchem de lágrimas ao lembrar que vivo aqui uma pequena retrospectiva de toda fase dois, científica, do Projeto Giraventura, iniciada em 2018. Poderiam essas memórias virem de um país que pré julguei e que fiz pouco caso durante toda a fase de planejamento da rota? Sim é a resposta, pois é uma maneira de mostrar a minha fragilidade e que qualquer tipo de preconceito seja, talvez, uma das maiores barreiras do autoconhecimento e da sabedoria científica e humana.

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Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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