Dia #0: Frankfurt

Atualizado: 12 de Set de 2019

Todo mundo pergunta para mim quais os maiores desafios de uma jornada. Seria pedalar sozinho, sair sem ter lugar para dormir, ou passar frio, fome. Enfim, nenhum deles, já explico.


Hoje, chego à Frankfurt para a última parte da etapa Extremos do Mundo, em pleno verão setentrional, exatamente seis meses depois da minha partida em Puerto Montt pelo verão patagônico.


Quebrar o vínculo e o apego de tudo o que me rondou durante esses seis meses de Brasil é, sem dúvida, o mais difícil. Nessas últimas semanas e principalmente nesses últimos dias, fui bombardeado por tudo o que alguém de bem e preso ao sistema pode ter. Multas de trânsito, impostos não previstos, corretores, centrais de atendimento.


Eu entendo tudo isso. Nesses seis meses eu fiquei na surdina. Não queria ser descoberto pelo sistema, mas a necessidade das redes sociais como instrumento comercial, fez-me aparecer. Então, ele me descobriu e aí foi um caos. Uma vez descoberto, fez de tudo para eu não seguir meu sonho e ficar preso a ele, às suas garras.


Esse mesmo sistema viajou comigo, atravessou o oceano Atlântico e recepcionou-me em alemão, num país “desenvolvido”, com mais autoridade, mais câmeras de vigilância e mais regras. Estou na Alemanha e fui calorosamente recepcionado por uma tropa de policiais na saída do avião e obrigado a contar minha historia do porquê dessa vinda, nos mínimos detalhes. O problema é que o porquê dessa vinda não faz parte do sistema, então tudo pareceu estranho. Liberado, caí numa fila desorganizada (estamos na Alemanha) de controle do passaporte. Depois de um bom tempo esperando dei de cara com um garoto arrogante que tinha idade para ser meu filho. Filhote do sistema e jovem fiel escudeiro, cumpriu seu protocolo à risca. Apesar de eu saber que minha história não se encaixa ao patrão dele, não quis mentir em nenhum momento para não cair em contradição. Entretanto, isso é um problema. Eu compreendo que eu sou uma espécie de vírus que deve ser eliminado. Não contente com as quinhentas perguntas que me fez, chamou ajuda de um outro filhote com mais anos de casa e de subserviência. Abriram um mapa e me perguntaram como alguém em sã consciência pretende pedalar daqui até Nordkapp. Pediram para eu mostrar minha reserva de hotel, e meu dinheiro, afinal essa é a chave da felicidade do sistema. Não tendo mais nada a falar ou a me questionar, o jovenzinho olhou para mim com um sorriso amarelo, encheu o peito e com toda a sua força, meteu o carimbo de entrada no meu passaporte, como se aquilo fosse um peido de um chucrute mal degustado.


Depois disso, peguei o trem à estação central. Cheguei ao hostel cansado depois de doze horas de viagem e de carregar caminhando, por pelo menos um quilômetro, meu equipamento embaixo de um calor de quarenta graus.


Cheguei à recepção de um simples hostel. Um senhorzinho alemão atendeu-me. Pegou meu passaporte, viu que era brasileiro. Ofereceu-me água (vida) e começou a arranhar um português. Contou-me que falava seis idiomas, pois nas horas vagas, tinha o costume de ouvir programas de varios países pela internet.


Deixou-me à vontade, indicou-me o supermercado mais próximo e no final abriu-me um sorriso. A essa altura, o sistema, já respirando por aparelhos, não conseguiu conter a minha explosiva felicidade para o início do meu sonho de aventura à Nordkapp.


Desculpe sistema, morra por enquanto, um brinde à liberdade!


Bem vindos em tempo real ao Extremos do Mundo, parte dois!





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Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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