Bom Jesus do Amparo, MG


Você viria a Bom Jesus do Amparo, ou melhor, você já ouviu falar de Bom Jesus do Amparo?

A vila com aproximadamente 6.000 habitantes passa longe das mais famosas da Estrada Real, como Conceição do Mato Dentro que encanta pelas cachoeiras ou Serro, que possui uma arte barroca estonteante.

Sair do comum sempre fez parte da minha trajetória no Projeto Giraventura. Não quis apenas conquistar o Ushuaia, então fui para o Cabo Norte, na Noruega, no mesmo ano de 2019. Também não quis pedalar o Caminho Francês de Santiago de Compostela em 2014, saí de Barcelona. No ano passado, não quis fazer mais uma rota de bike pelo Brasil, quis atravessar os 6.475 km do Brasil do Norte ao Sul.

Cheguei hoje pedalando à pequena vila mineira de Bom Jesus do Amparo. De recordação daqui, uma passagem em 2013, devidamente registrada no livro oficial de viajantes da Estrada Real. No entanto, havia mais do que isso. Em minha primeira passagem conheci o Fernando, morador da vila, mineiro orgulhoso e funcionário da Secretaria se Turismo da prefeitura.

Por essas ironias da vida, eu e Fernando sempre mantivemos contato. Por que? Não sei, mas por que necessitamos ter respostas para tudo? Fernando acompanha o Projeto Giraventura desde a etapa 1. Certa ocasião, chegou a fazer um relato por escrito em meu blog. Mas sou sincero em dizer que falamos pouco ou quase nada durante esse período. Entretanto, algo sempre fica. Geralmente não acreditamos quando a vida nos dá um olé e nos coloca à frente situações inusitadas, as quais somos meros coadjuvantes.

Perdi o contato do Fernando via redes sociais, mas por algum motivo inexplicável, estava lá o seu número de celular guardado nesses cantos obscuros e que ninguém acha nesse universo de informações em nuvens.

Não imaginava que o telefone de Fernando permaneceria depois de tanto tempo. Imaginava menos ainda que no início de 2021 faria a Estrada Real pela segunda vez, dessa vez guiando um inglês que aterrissou da Inglaterra especialmente para conhecer os encantos reais do Caminho dos Diamantes.

Assim que entrei em Bom Jesus, fui baixando por suas pequenas ruas e revendo um filme que vivera há anos. Minhas lágrimas desceram revivendo as ladeiras íngremes da vila e ouvindo o lindo sotaque mineiro de mulheres tagarelando nas portas de suas casas. Mexeu comigo e já falei que reencontros são muito loucos quando os comparei à releituras de livros encaixotados no porão. São outros estágios de experiências!

A poucos metros de uma encruzilhada que me levava à pequena igreja matriz, eis que vejo meu velho amigo que me aguardava com um sorriso emblemático. Recepcionou-me, papeamos, tiramos fotos juntos e marcamos de nos rever. Ligou-me mais tarde, dizendo que meu nome estava registrado no livro de passagem de viajantes da Estrada Real na data de 1 de janeiro de 2014.

Se me perguntar como vim parar em Bom Jesus, como um bom engenheiro poderia te responder que cheguei a Diamantina e peguei a estrada sentido Ouro Preto. De fato, isso não tem valor. Permiti-me reviver essa experiência de peito aberto e coração na ponta do pé ou melhor, da sapatilha. Essas experiências trazem-nos riquesas e ensinamentos e um dos que mais levo é justamente que a distância ou o tempo não são necessariamente um empecilho para uma boa relação, desde que haja admiração e carinho de ambas as partes.

Sou grato por estar aqui, por viver essa emoção, sorte! Sim, sorte, um encontro entre a oportunidade do momento e a coragem de tentar ser diferente.

O Caminho dia Diamantes é precioso, como a construção da minha amizade com Fernando, que nem o tempo, nem a distância e nem as redes sociais conseguiram apagar os 8 anos de sua existência.


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