Aldeia Tukai


Meu dia começou cedo, 4h. A estratégia, fugir o máximo possível do Sol.

Titubeei na saída. Sabia que o desafio era grande, impossível não dar “aquele” medo. Com a bike montada, fui para o meio da rua e pude observar o céu avermelhando-se ao meu lado direito. Voltei rapidamente à bike, subi nela e parti rumo aldeia Tukai, 88 km de distância.

Pedalei poucos quilômetros quando encontrei mais três ciclistas pedalando no breu. Cumprimentaram-me, depois me alcançaram. Era um grupo de Oiapoque, duas garotas e um rapaz, todos jovens. Aos poucos fui aquecendo, quando nos dispersamos. Fui encontrá-los novamente mais adiante, sentados em um banco em frente à rodovia. Com apenas 20 km no odômetros, despedimos-nos e segui em frente.

Os primeiros 45 km foram de asfalto com sucessivas rampas. Quando o asfalto terminou, o Sol já tinha dado as caras. Forte, queimava a minha pele enquanto a poeira levantada pelos carros formava uma cortina à minha frente. Um caminhoneiro parou ao meu lado, perguntou se estava bem e me presenteou com uma garrafa de água e um pacote de biscoito.

Comecei a ter dificuldades, as rampas eram sequenciais e o Sol escaldante não davam trégua. Reparei que algumas nuvens no céu cobriam esporadicamente o Sol. Procurava sombras e quando as encontrava ficava debaixo delas aguardando as nuvens fazerem o seu papel. A essa altura, no km 50 já havia tomado seis litros de água.

Comecei a atravessar diversas aldeias indígenas. Em uma delas, aldeia Estrela, parei para descansar e fazer um lanche. Fui cordialmente atendido por uma índia que me forneceu água fresca. Pensei em parar, meu joelho direito começou a doer, troquei a joelheira de lugar para aliviar, melhorou um pouco; continuei.

Faltavam 20 km para a Aldeia Tukai quando parei uma aldeia antes, Samauma. Barracas em frente à aldeia vendiam alguns sucos. Resolvi experimentar um amarelo, a Índia falou-me que era de tucupi; horríveis, salgados. Paguei deixando a garrafa lá.

Alcancei a aldeia Tukai 6 km depois. Desgastado e muito cansado, fui direto ao posto de saúde perguntar sobre o cacique, que cochilava serenamente debaixo de uma mangueira. Pedi permissão para dormir aqui, mostrei-lhe meu joelho, falei que doía. Parecia que falava um dialeto de francês, mas me compreendeu. Mostrou-me um galpão e me deixou à vontade.

Saquei minha cozinha, preparei-me um macarrão e instalei minha rede entre duas colunas de madeira. Fui ao rio tomar um banho, voltei e cochilei. O cacique voltou ao alojamento e começou a conversar comigo em português.

Arrumei minhas coisas e deitei novamente. Agora, tentando me recuperar para estar de pé novamente amanhã às 4h da manhã.

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