Dia #36: Tolhuin



►Os 104 km que separavam Rio Grande de Tolhuin pareciam-me desafiadores logo pela manhã, mais por conta do vento. Iniciei meu penúltimo trecho rumo ao fim do mundo por volta da 10h, pegando uma via oeste à RN3 com vento de frente. Sabia que a sua direção mudaria assim que pegasse a estrada; realmente mudou, com vento de costas, na diagonal, não tive problemas para pedalar os cinquenta primeiros quilômetros num mix de paisagem árida e mar. O vento gelado era abrandado pela dúzia de casacos que me vestiam e pelo calor do corpo conforme desenvolvia o pedal. Parei para comer no quilômetro 54, exatamente meio do percurso. Escondido novamente atrás de um morrinho, consegui ficar por lá durante quinze minutos, o máximo por conta do frio de oito graus. Estrada novamente e a paisagem aos poucos começa a mudar. Montanhas e muita vegetação dentro de uma floresta, davam-me boas vindas à penúltima etapa. Subidas e descidas intercalavam-se com vento de frente. A 14 km do final, o céu começou a escurecer e reparei que caminhava em direção à chuva. Parei, protegi-me ao máximo ela veio ela, fria e com granizo. O granizo batia no rosto como uma agulha picando-me; foram dez minutos assim. Um desafio, enquanto os carros e caminhões passavam do meu lado esquerdo jogando-me um imenso spray de água. Tolhuin aproximou-se com uma linda tarde de sol. Destino, Panaderia La Union, talvez um dos lugares mais famosos desse trecho. Ponto de encontro de ciclistas de todo mundo, os que vem e os que vão, fui muito bem acolhido na linha chegada. Um quarto com beliches, com dizeres e mensagens de ciclistas de todo mundo, davam-me boas vindas. Aconcheguei-me, conheço pessoas, trocamos ricas informações de tudo, de lugares, de equipamentos. Conheci gente com outros valores, com outras atitudes, nem mais certas ou mais erradas, só atitudes. Viver esse momento é mágico. Ainda penso que estou imaginando tudo isso. Sempre quis chegar ao lugar mais extremo do planeta mas nunca tive a sensação de hoje, de que esse dia estaria tão próximo. Vou agradecer amanhã, à natureza, a Deus. Num simbólico acampamento selvagem vou despedir-me do dos 2400 km de caminho, de vida, que me fizeram ver as coisas por um outro prisma, por um prisma extremo, que todos deveriam conhecer um dia, e respeitar.


Nestor Freire, engenheiro e cicloviajante

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

® 2020 Giraventura Consultoria