Dia #33: Onaisin / Parque Pinguino Rey



►Que noite gostosa, aquecida com o forno a lenha, então, dei-me ao luxo de pular da cama às 8h. Dia preguiçoso, aos poucos fui ajeitando minhas coisas e preparando meu café da manhã. Depois de receber algumas mensagens no Garmin de feliz aniversário (por um momento esqueci dele), bate à minha porta a Sra Letícia. Sorridente e com dois pães de geleia na mão, abraçou-me calorosamente, deu-me um beijo e assim falou: “feliz cumpleaños, mi hijo!”, (havia comentado sobre o meu aniversário com ela ontem no jantar). Aquilo encheu-me os olhos de lágrimas, fiquei sem graça e pedi para tirar uma foto dela. Sentou-se num banquinho do lado de fora da cabana e se pôs a sorrir. Quando mirei a câmera a ela, juro que vi minha mãe. Todo esse carinho, desde ontem, sem contrapartida, só poderia vir dela. Tiramos mais algumas fotos juntos, ele me deu os pães com geleia, falou algumas palavras muito bonitas e se foi. Pode parecer loucura, mas fiquei atraem dúvida se essa mulher realmente existiu para mim ou foi minha mãe fazendo-se encarnada. Autossuficiente de água por um dia e comida por três, comecei a pedalar às 11h em direção à encruzilhada do Paso San Sebastian/Cerro Sombrero/Onaisin. Nos primeiros vinte quilômetros, subidas e descidas médias, depois foi plano, vento a favor e rípio de ótima qualidade. Assim, desenvolvi sem maiores problemas todo o contorno norte da gigantesca Baía Inútil. Cheguei à encruzilhada sessenta quilômetros depois. Nela, um abrigo de ciclistas, muito bem cuidado por sinal. Ainda era cedo, 14h30, decidi continuar por mais quinze quilômetros do lado sul da baía para conhecer o Parque Pinguino Rey. Nesse trecho, a estrada estava um pouco difícil e vento lateral de quinze nós, mas uma hora depois alcancei o parque. O parque é uma colônia dedicada à proteção dos pinguins da espécie rei, rara! Na América, essa é a única. Por doze mil pesos, entra-se no parque, que sinceramente não tem muitos atrativos. Pode-se avistar os pinguins de longe utilizando uma luneta. Depois, anda-se por um sendeiro que leva a um outro grupo que fica mais distante. Pronto, acabou, o parque é isso! Saindo do parque, perguntei ao funcionário sobre acampamentos por perto, uma vez que não queria pedalar quinze quilômetros até a encruzilhada de novo. Disse-me que não existia, mas mostrou-me um refúgio na montanha seguinte. Completei minha água e segui viagem por mais dois quilômetros. Cheguei ao refúgio, imundo, um beliche com duas espumas e uma pequena mesa. Parei, pensei e resolvi ficar por aqui mesmo. Comecei a ajeitar as minhas coisas para o jantar. Economia de água total, teria que dar para a janta, para a higiene, para o café da manhã e por mais pelo menos quinze quilômetros de estrada amanhã. O dia terminou cedo, para amanhã, também começar cedo, pois minha despedida do Chile está a apenas cinquenta quilômetros daqui. Propor-se a dormir aqui pode parecer um desafio para alguns. À medida que o tempo passa, eu me acostumo ao ritmo, aos perrengues, às dificuldades, mas confesso que também cansa. Sempre digo que a questão é setenta por cento psicológica e vinte por cento física. Estar bem preparado fisicamente é importante, mas secundário. Hoje, com 52 anos completos, tive o aniversário mais diferente da minha vida. Geralmente, reunimos pessoas queridas ao nosso redor, fazem-se festas em barzinhos para os convidados lhe cumprimentarem e pagarem a conta deles. Hoje, o meu dia foi um dia comum, como esses últimos. Aceito e agradeço as felicitações de todos que lembraram, mas na verdade, fazemos aniversário todos os dias que acordamos e vemos que somos capazes de pensar, decidir, sentir. Viver esses dias aqui, tem mostrado-me o quanto abusamos de ter quando temos. Desde água à companhia das pessoas. Aqui, os valores são diferentes, pois se valoriza muito quando se tem pouco, ou praticamente não tem. Assim, o que precisamos para sermos felizes é muito pouco material e muito espiritual. Hoje, acredito que estar bem consigo é ter consciência desse equilíbrio. Que isso fique de ensinamento para mim e para você!


Nestor Freire, engenheiro e cicloviajante

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

® 2020 Giraventura Consultoria