Dia #28: Morro Chico



►Amanheceu chovendo! Que dureza, sair de uma cama quentinha pra encarar a ventania na chuva. Hoje, o vento estaria supostamente à favor, segundo o Windy®️. Assim, os cem quilômetros que separavam Puerto Natales de Morro Chico seriam muito menos cansativos do que a jornada de dois dias atrás. Encarei a estrada um pouco tarde, por volta das 10h30. Um pequeno morro no começo é uma hora depois já pararia para fazer meu primeiro lanche em frente ao quartel dos carabineiros. Continuei, a chuva cessou e o sol começou a aparecer. Com o vento de dez nós totalmente a favor, consegui desenvolver muito bem desde o início. A estrada é um pouco cansativa, bem movimentada e estreita, sem acostamento. Há fluxo de caminhões, alguns abriram para me ultrapassar, outros simplesmente me desprezaram e muitas vezes tive que jogar a bike para a lateral no rípio para lhes dar passagem. A estrada corta várias fazendas e segue praticamente paralela à fronteira com a Argentina quase todo o tempo. Um pouco antes do quilômetro cem, já é possível avistar-se Morro Chico, um monte encravado no meio dos campos; um lindo rio de águas rasas margeia-o. Num posto de carabineiros à beira da estrada, parei para perguntar sobre camping e abrigo. Indicaram-me uma casa abandonada do outro lado da estrada. Fui até ela é achei simpática; visualmente lugar de abrigo para ciclistas e mochileiros. Montei acampamento dentro dela. Do lado de fora ventava muito e fazia frio. Preparei meu almoço, janta, nem sei mais. Chegaram dois franceses de bicicleta transportando um cão num carrinho. De pouca prosa, apenas cumprimentaram-me e se ajeitaram também. Depois da minha refeição com a porra do cachorro tentando garfar minha comida e já com a barraca montada, bateu um sono. Cochilei umas duas horas, ainda não tinha acontecido na viagem. O corpo pediu pausa! Enquanto cochilava, o vento batia nas telhas soltas da velha casa e parece que ia levar tudo; ele não dá trégua um minuto. Acordei com muita preguiça para fazer o pior. Ir ao rio pegar água e escovar os dentes. Não consegui ficar muito tempo do lado de fora, apesar do sol de fim de tarde. Voltei ao abrigo, coloquei todas as minhas roupas possíveis e imagináveis, fiz um chá quente e deitei de novo. É difícil dormir no claro e aqui escurece totalmente por volta das 23h30. Vou continuar a jornada amanhã, provavelmente muito cedo, com vento, com ou sem sol, com ou sem chuva, mas com a certeza de mais um dia diferente.


Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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