Dia #26: Puerto Natales: limites, entrega e superação



►A sensação que tive hoje quando acordei do dia do ontem é que foi tudo um sonho. Ainda não revi as poucas fotos que tirei para acreditar, ou talvez ainda precise de um tempo para digerir tudo, mesmo tendo acordado com os ouvidos zunindo pela ventania. Enfim, sonho ou não, a história foi mais ou menos assim: Eram 108 km que me separavam Tapi Aike de Puerto Natales. Estava com comida, mas meu lanche já tinha sido consumido no pobre café da manhã que me dei antes de partir. Por sorte, no posto de gasolina em frente, havia algo como bolachas de chocolate. Comecei a viagem e reparei que o vento vinha de encontro a mim e continuei. O tempo foi passando e ele começou a ficar cada vez mais forte, não mudava de direção e tinha a sensação que formava um paredão invisível que tinha que transpor. Estava numa reta, mas tinha que fazer muita força e a impressão que dava era que subia uma montanha. O vento gelado cortava minha segunda pele humildemente colocada para enfrentar um dia de sol e brisa. Pedalei cinco quilômetros sem sair do lugar, olhei para a estrada a minha frente, um estradão continuo, deserta, sem vida. Comecei a chorar, não sabia o porquê! Depois, comecei a gritar, como se quisesse a toda maneira transpor uma barreira invisível à minha frente. Daí, veio a consciência de que não tinha forças para continuar naquela batalha, precisava comer. Achei um pequeno abrigo de metal. Entrei nele e tirei toda a minha cozinha para fazer um macarrão em plenas 10h da manhã. Enchi a panela de água, acendi o fogareiro. Uma rajada de vento virou toda a panela com a preciosa água que me faria falta posteriormente. Repeti a operação com mais cuidado e cozinhei isolado, no meio daquele vendaval. Arrumei minhas coisas, agora com o estômago cheio, coloquei meu casaco, continuei viagem. Os carros passavam buzinando, glorificando aquele martírio. A ventania de vinte nós vinha de frente, sem dó, pegava de lado também. Rajadas pagaram-me de lado e por duas vezes derrubaram-me. Aos poucos, fui tomando consciência e tentando me acalmar, tentando aceitar a situação. Mudei a tela do GPS para mapa, não queria mais saber quantos quilômetros restavam-me, não me importava mais, sabia apenas que tinha que enfrentar a situação que eu me coloquei. Olhava constantemente bússola do GPS e quando havia à frente mudança de direção na estrada, comemorava. Aos poucos, a água foi acabando.

Suando dentro daquele casaco comecei a economizar e ficar com a boca seca. Resolvi pedir ajuda! Tirei a caraminhola, levantando-a e a agitando, esperando por anjos com o mínimo de solidariedade. Parou um carro! Dentro, quatro mulheres. Perguntaram de onde vinha e aonde ia. Deram-me uma garrafinha de água mineral, cheia, lacrada. Agradeci muito a elas e acabei com a garrafa em questão de segundos. Continuei viagem! Longas subidas e tobogãs à frente, mais uma hora de travessia com vento frontal. Ainda economizando água, fui até o limite, parei em frente à uma placa segurando a bike para não ser levada pelo vento. Resolvi usar a mesma tática anterior, tirei a caraminhola quando vi uma SUV aproximando-se, passou por mim e não parou. Deitei a bike no chão e sentei-me ali, desolado na sarjeta. Olhei para o lado e vi a SUV de novo, retornaram para me acudir. Dentro, uma família de chilenos indo para Coihaique. O patriarca desceu e me perguntou se estava bem. A primeira palavra que disse, água por favor. Entrou no carro, pegou uma garrafa de ice-tea e encheu minha caraminhola. Nesse momento, o filho dele grita de dentro do carro: tem água aqui! Acabou completando todas as minhas garrafas. Foram-se, imagino que felizes e com a impressão de terem ajudado um desconhecido perdido naquela imensidão desértica. Continuei, agora maias forte, hidratado. Agora mais consciente, comecei a “negociar” com o vento em vez de xingá-lo. Comecei a compreender suas variáveis e entender que o intruso ali era eu! Comecei a tentar jogar a bike a favor dele quando me pegava lateralmente, assim ele empurraria-me 45 graus para frente. Aos poucos, fui desenvolvendo até que no quilômetro cinquenta a estrada mudou de direção. A ventania frontal passou a ser lateral e aos poucos foi amenizando até começar a descer. As montanhas por onde entrei protegiam-me dele até atingir um vale já perto da cidade da fronteira, Rio Turbio.

Da entrada da cidade até a fronteira, longos quinze quilômetros de montanha. Entrei na cidade e parei numa padaria, tremendo, buscando qualquer coisa que fosse de farinha. Comprei um sanduíche e uns pães de queijo; devorei-os. Comprei uma barra de chocolate, uma Coca-Cola. Parei um pouco, via o movimento da cidade em pleno sábado à tarde, um parque de diversões à minha frente com música alta; tudo aquilo parecia um sonho, sentei na sarjeta e comecei a chorar de novo. Acredito ter sido um descarrego por tanta emoção nas últimas horas. Enchi-me de forças, olhei para a montanha à minha frente e me disse: vou encarar! Fui em direção à fronteira, passei pelas duas imigrações rapidamente e peguei descida de vento contra a apenas quatorze quilômetros de Puerto Natales. Ia muito lento, sem forças e todo assado, desenvolvia oito quilômetros horários. A cidade aproximava-se lentamente; eu sem pressa. Fui adentrando à cidade, eram quase 22h e eu na estrada à treze horas. Etapa final, arrumar algum canto para passar a noite. Bati em uma, duas, três hospedagens; todas lotadas. Na quarta, um senhor atendeu-me e me arrumou um canto para passar a noite. Saquei minhas coisas da bike, entrei no quarto e as joguei sobre a cama e por ali fiquei. Encostei-me na parede do quarto, respirei fundo e me deu a impressão que acabara de sair de um sonho. Estava com fome, mas uma sopa bastaria-me para me tranquilizar.

Fiz-me o único sachê de sopa que tinha e a tomei com algumas bolachas que me restaram. Agora, banho quente e cama era o que o corpo pedia. Difícil até de lavar de tão machucado e assado que eu estava, mas foi o suficiente para acalmar depois de um dos dias mais intensos da minha vida.


Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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