Dia #25: Tapi Aike



►Dormi cedo ontem, 21h15, estava exausto pelos 140 km. A noite foi barulhenta, não consegui relaxar deutério. Horas ouvia cachorro, gato, ronco na barraca ao lado, caminhões passando pela estrada. Enfim, a noite foi conturbada, mas mesmo assim levantei disposto. Os quatro franceses da barraca ao lado levantaram comigo. Arrumaram as coisas e partimos juntos na Ruta 7, destino: Tapi Aike. Previa um dia difícil pelos setenta quilômetros de rípio até o encontro novamente com a Ruta 40. O dia estava nublado, não ventava pela manhã. Todo indicava uma grande jornada. Só que aqui, as coisas são mais surpreendentes do que parecem. Esses setenta quilômetros foram uma verdadeira Via Crucis. A estrada estava em péssimas condições. Logo no começo os franceses ficaram para trás, queriam pescar num pequeno riacho que parecia ter mais pó do que peixe; parti sozinho! Atravessando uma região desértica, não havia pontos de água, subidas e descidas dentro de uma região árida completamente sem vida. O único bicho que eu via passando por ali, além de mim, eram os huemuls e alguns cordeiros perdidos. A medida que percorria a estrada, o rípio ficava mais difícil. Difícil a ponto de me irritar. Algumas vezes, pedras soltas, ia com a máxima cautela. Outras, pedras pontiagudas presas ao solo, chacoalhava tudo. A dor nos braços e no pescoço por tantos desvios e por procurar caminhos alternativos, foi aumentando. A irritação já estava muito grande por volta do quilômetro sessenta, quando também começou a ventar. Desci da bike e comecei a empurrar, não queria mais pedalar, disse para mim que chegaria empurrando seja quantas horas fossem necessárias. Aí, entrou outro porém. Minha água foi acabando, assim como minha comida. Não dava para parar para cozinhar numa região completamente aberta e agora, com o sol na cabeça. Fui tentando controlar-me, falei para mim que não deveria desistir de pedalar. Pedi ajuda à minha mãe para dar-me uma luz. Tentei caminhos laterais pelo pouco mato existente. Nada me livrava do péssimo rípio. Voltei a pedalar, completamente dolorido, fui aguentando o sacode preocupado até quanto a bike iria aguentar também. Pensei em parar uma caminhonete para uma carona, mas quem disse que passava? Os últimos dez quilômetros foram em contagem regressiva até conseguir avistar o posto da Vialidad e da polícia rural no final do rípio. Parei e perguntei se poderia acampar. Por 220 pesos consegui acampamento e banho quente. Ufa, cheguei, ainda tremendo, montei minha barraca e fui fazer algo para a janta. Hoje, foi tudo, a cabeça, os braços, o ombro, a bunda. Incrível que as pernas e os joelhos estão inteiros. Hora de dormir, amanhã, volto só asfalto para a despedida da Argentina e entrada no Chile por Puerto Natales. O projeto vai avançando! Não consigo pensar em futuro, só consigo pensar em tentar preparar-me e ter cabeça para lidar com esse número de variáveis que testam a minha resiliência e paciência aos extremos. Agora penso uma sugestão de outro nome ao projeto: Projeto Extremos de Mim, parte 1.


Nestor Freire, engenheiro e cicloviajante

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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