Dia #21: El Chalten



►Acordei 6h para começar a arrumar as coisas para partir. O povo ainda todo dormia, entrei na cozinha para esquentar a água do café e dou de cara com um cartão postal do Dani (vivir en bicicleta) com uma dedicatória para mim. Que excelente maneira de começar o dia, não? Ter o reconhecimento desse cara, que para mim, é um dos grandes pela ousadia. Tudo pronto e veio até o mim, o Ben, aquele francês chato. Obviamente, acordou reclamando e resmungando. Eu pensei: terei que aguentar esse sujeito durante toda a travessia? Já comecei a pensar uma maneira de me livrar dele. Mag e Greet também acordaram para pegar o mesmo barco que não me levaria a Candelario Marsilia, mas as levaria para conhecer o glaciar O’Higgins. Comportamento completamente diferente do francês estupido! Apesar das dores da forte pancada do dia anterior, Mag veio até mim para me cumprimentar e dizer bom dia! Eram oito quilômetros até o porto. Coloquei minhas coisas na bike e quem vem atrás de mim? O Ben! Que porre! Pensei que estou ficando craque em atrair gente chata e pegajosa. Chegando ao barco, já coloquei a minha bike no deck e guardei dois lugares para a Mag e a Greet. Infelizmente, eram fileiras de quatro e adivinha quem já sentou do meu lado? O Ben! Eu mereço! Foram três horas de travessia até Candelario Marsilia pelo lago. As primeiras duas horas foram tranquilas, depois começou a balançar muito. Fui para fora do barco pois comecei a não me sentir bem. Coloquei em dúvida se estava enjoado pelo balanço do barco ou pelo francês do meu lado, que também fedia além de tudo. Chegamos a Candelario, fui o primeiro a descer e retirar a minha bike. Voltei para o barco para um longo e apertado abraço em Greet e Mag. Apertou a garganta! A partir de agora, era comigo! Aventura cem por cento dentro da floresta que separa o Chile da Argentina. Passei na imigração para carimbar minha saída oficial. Nesse momento, um outro rapaz também de bike atrás de mim e, óbvio, Ben. Feito os trâmites, tive uma longa subida de rípio pela frente, uma montanha de oitocentos metros de altura. O francês passou por mim, então comecei a andar mais lento para o deixar ir com Deus e não comigo. Reparei que aquele rapaz de bike vinha no mesmo ritmo que eu. Parei, perguntei o nome dele e propus a ele, atravessarmos juntos para nos ajudarmos nos piores lugares. Ele se apresentou e topou! Seu nome, Tomás, da República Tcheca, vindo do Alasca pedalando. Fomos conversando e ele me contando várias historias, inclusive que interrompeu durante um tempo a sua viagem por ter sido mordido por um cão enquanto pedalava. Terminamos a subida juntos e começamos a pedalar no plano e aos poucos entrar na floresta, quando avisto o Ben parado à minha frente. Eu não acreditei que fosse possível isso! Não conseguia librar-me dele. Pensei em passar a noite na floresta, mas também pensei no risco de ele também querer montar a barraca a meu lado. Continuamos os três. A floresta foi fechando e aos poucos quando adentramos em território argentino, aí a coisa mudou de figura. Tivemos que atravessar rios, pântanos e carregar a bicicleta por vários quilômetros. O Ben, à minha frente, dando um show de estupidez. Descia as rampas, todas irregulares e cobertas de raizes expostas para fazer filmagens para mostrar a seus amigos. Pensei comigo: isso não vai dar certo! É realmente não deu, o bagageiro do francês partiu no meio por tanta pancada que levou devido às suas gracinhas. Quando o vi à minha frente, jogando as coisas no chão e muito puto, eu ri! Pensei: cada um tem o que merece! Eu e o Tomás passamos pelo imbecil, sem dar a mínima e continuamos nossa via sacra, como se nada tivesse acontecido. Não gosto de sentimento de vingança, mas não tenho como deixar de dizer, que gostei de ver ele se fodendo. Não precisei fazer nada, ele fez por ele mesmo. Nessa, eu e o Tomás continuamos juntos, tentando achar os melhores caminhos no pântano. Horas tirava a minha bota para colocar a Crocs (aprendizado do Monte Roraima para travessia de rios) e atravessar os riachos carregando a bike. Demoramos exatos seis horas para cumprir exatos seis quilômetros, acreditem. Tínhamos que chegar ao outro lado do morto até as dezoito horas para pegarmos o barco que cruzaria a Lagoa Del Desierto. Quando comecei a avistar o monte Fitz Roy à minha frente, empolguei-me. Não só pela beleza e imponência da montanha à minha frente, mas pela realização de estar terminando uma das trilhas mais difíceis que já fiz. Passamos pela imigração Argentina para dar a nossa entrada oficial. Chegamos uma hora antes do barco partir com sentimento de dever cumprido. Fui agradecer ao Tomás, pelo apoio e dizer a ele que esse é o espírito de colaboração que todos deveriam ter com todos, mesmo os desconhecidos; ele concordou. Em 45 minutos, atravessamos a Lagoa é chegamos a seu outro lado. Eram mais 36 km de rípio até El Chalten. Estava muito cansado, desgatado, poderia ter acampado ali, mas resolvi encarar. Queria um dia de descanso, sem pedalar em El Chalten. Queria lavar as minhas roupas, dormir numa cama, acordar sem a preocupação de sair cedo. Talvez, esses 36 km pedalando, foram os mais difíceis até o momento. Por toda a situação anterior e principalmente pela estrada na Argentina em situação de abandono! Não desenvolvia mais do que 8 km/h de média e demorei mais quatro horas para alcançar El Chalten. Cheguei à El Chalten, destruído, com fome, sede e completamente esgotado. Eram quase dez horas da noite e comecei a procurar um canto para dormir. Fui na sorte do GPS, casa azul. Falei com o dono, que me mostrou vários quartos compartilhados com diversas camas e beliches e banheiro comunitário. Pedi a ele um quarto único. Ele apresentou-me um, com cama de casal e banheiro privativo. Fiquei com esse, paguei a mais, não dava para passar essa noite no desconforto. Arranquei todas as coisas da bike e as joguei todas no chão. Tomei um banho, tirei minha roupa de quatro dias sem lavar. Saí para comer algo, voltei logo. Tomei um relaxante muscular e apaguei, talvez para uma das melhores noites de sono da minha vida!


Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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