Pirineus - parte II - Prats-de-Mollo


►Estratégia para a empreitada de hoje, acordar bem cedo por causa do calor. Assim foi, levantei 7 h, estava escuro, fui para a cozinha da hotelzinho super simpático que achei ontem. Fiquei conversando com o dono, assinei o livro de hóspedes, a bike já estava preparado no quarto, parti.

Sabia que hoje seria o maior desafio da viagem, eram três montanhas para se alcançar a última vila em território Francês, Prats-de-Mollo. Estava preocupado, as pernas muito doloridas, estava à base de Ibuprofeno, tinha receio de algum estiramento muscular. Fui com cautela, fui sentindo a pedalada e a primeira montanha começou para valer oito quilômetros depois da minha saída, uma subida de 4% a 5%. O sol saiu de trás da montanha e vi que o dia seria complicado. Nessa primeira etapa foram treze quilômetros morro acima, só ascensão para encontrar o primeiro Col do dia, o Col des Ausines, de lá já era possível de ver o Mar Mediterrâneo.


►Logo após o Col des Ausines já era possível se ver o Mediterrâneo, abaixo ao sul, as montanhas mais altas da fronteira entre os dois países me aguardando


Já muito quente, morro abaixo à vila de Vinça, passando ao lado de uma represa seca e adentrando na vila para a minha primeira parada do dia. Bolangerie aberta de domingo, não tive dó, comprei uma coca, uma pizza e levei um croissant doce para comer no caminho.


►Acima, Vinça

Ainda estamos no quilômetro 38 e a fatiga começava a aumentar. Fui ao encontro de mais dois cols. Comecei a subida, cansativa, sol forte, 40 graus marcava assim o GPS. Foram dezoito quilômetros de subida, tentei manter o ritmo, a cadência, doía tudo e pedia proteção à minha mãe, comecei a chorar. Gritava comigo mesmo, era a montanha me desafiando e ela é assustadora de perto. Cheguei ao segundo col do dia com um grito que deve ter rugido montanha abaixo, Col Foutou, dali se apreciava a vista de uma imensa floresta verde. Não terminava por aí, mais um col na sequência, dessa vez, o Col Xatard, mais cinco quilômetros de subida até lá. Cheguei estafado e comecei a descer. A primeira vila, Saint-Marsal, passei e não parei, eram mais quinze quilômetros ladeira abaixo, pensava eu. Desci cinco quilômetros muito íngremes e comecei a notar que os freios estavam fritando. Resolvi descer mais devagar e quando encontrava uma sombra, parava, dava cinco minutos e continuava para os freios aguentarem. Vieram subidas curtas no meio dessa descida, uma espécie de platô e depois uma montanha-russa sobe e desce. Cada vez que chegavam essas pequenas subidas, as pernas não tinham mais força para pedalar, ia bem lento, passei por Taulis e aos poucos fui alcançando a vila de Amélie-les-Bains.

Cheguei em Amélie, precisava, sentar, tomar algo fresco. Entrei numa cidade e parei no primeiro restaurante. Havia umas cadeiras na rua, sentei e pedi um Coca-Cola. Suava muito, tremia, a montanha mexeu comigo, estava desgastado, extenuado e com a cabeça a ponto de explodir. Não estava certo se teria condições de continuar até Prats, eram mais 700 metros morro acima. Dentro do restaurante, um música ao vivo, dança de salão, velhinhos da cidade bailavam.


Comecei a olhar aquilo, comecei a chorar, não entendia porquê. O dono do bar saiu, veio conversar comigo, perguntou de onde vinha, respondi Dunquerque, ele não acreditou. Perguntou se precisava de algo e lhe disse que estava com dúvidas se conseguiria chegar até Prats. Chamou o filho dele mais jovem, conversamos os três, me falaram detalhes da subida, me encorajaram. Resolvi encarar. Comecei a preparar as minhas coisas para sair, pneu furado, dianteiro, por sorte. Fiz o remendo rapidinho, não queria perder tempo, o sol tinha se colocado atrás de nuvens. Seriam mais 22 km de subida até Prats. Saí, encarei, começou plano, senti confiança. Era uma estrada, inclinação em torno de 3,5% a 4%, estava encarando bem. Já estava com 100 km no odômetro quando a subida começou a apertar, passou a ter 7,5 até 9% de inclinação. Senti que algo não ia bem, resolvi descer da bike, vi uma fonte de água no meio do caminho, parei, tirei o capacete e meti a cabeça embaixo da fonte, não queria ser vencido ali, dei um tempo. Voltei para a bike, empurrei um quilômetro, voltei a sentir confiança, subi de novo e comecei a pedalar. Faltavam cinco quilômetros para Prats e a inclinação não dava trégua, 8%. Fui em primeira marcha, devagar, leve e senti que conseguiria chegar pedalando. Entrei em Prats, um ciclista de speed parou ao meu lado, começou a desembestar a falar, não entendia nada, não dei muita atenção a ele, só queria chegar. Vi a praça da cidade de longe e assim que entrei, vi um hotel simples. Entrei e perguntei se havia um quarto, o dono foi verificar e respondeu: sim, só tenho um. Havia uma cadeira do lado de fora, sentei, não sei se era eu quem estava ali, não sabia o que estava acontecendo, só sabia que havia alcançado Prats-de-Mollo, a última vila francesa, depois de dez horas na estrada e 112 km pedalados. Meu prêmio, só pensava em dois, o banho e o descanso. Estou a 14 km do Col d'Ares, 1.520 m e fronteira entre França e Espanha. Amanhã, mais um desafio logo cedo, escalar 800 metros morro acima para trocar de país e atingir o ponto mais alto da viagem para o terceiro e último dia de Pirineus até Les Planes d'Hosteles, já na Catalunha.

Levarei a minha e a sua garra de ser brasileiro e nunca desistir, enfrentar os desafios, não ter medo de chorar, não ter medo de pedir ajuda. Estamos juntos nessa desde o começo e a três dias de Barcelona depois de 1.330 km pedalados. Não desista agora, vem comigo e vamos terminar mais essa jornada juntos na Sagrada Família de Gaudí. Boa noite!


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Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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