Bourges, simplicidade e sustentabilidade


►Simplicidade não é carência, para mim simplicidade é sinônimo de suficiência. Uma vida simples não é aquela que haja carência, mas sim aquela que haja suficiência. Esse é o mecanismo que me leva para frente, carrego estritamente o que eu preciso, como e bebo só o necessário. Ah, mas e o afeto? Sim, é a pergunta que mais ouço nas minhas palestras: você não se sente mal viajando sozinho? E a minha resposta sempre é não, pois além de encontrar pessoas interessadas em me ajudar de alguma maneira, por onde ando e por onde passo, tenho virtualmente o afeto das pessoas que realmente torcem por mim. Sabe, quando você quer saber se realmente o outro torce por você, só existe uma maneira na minha opinião, expresse só a sua felicidade, não fale de problemas. Se a pessoa vier com uma resposta positiva à sua felicidade, é porque ela está a seu lado, caso contrário, não.

Bem, toda essa introdução foi para começar a falar do meu dia em Bourges em companhia do Franck e da sua família. Franck é casado com Anne, eles têm uma linda menina de cinco anos chamada Heloise. Conheci Franck no Facebook, ele é administrador de uma página que se chama Mon Chère Vélo (minha querida bicicleta), um grupo do Facebook que promove o cicloturismo na região da Centre-Val de Loire. Na ocasião, janeiro de 2018, estava ainda muito abalado com a perda da minha mãe e foi dele uma das primeiras mãos esticadas para mim. Quem diria, um sujeito morador de Bourges, na França, me acolheu naquele momento difícil, mesmo que sem querer. Foi ali que começou o Projeto La Méridienne Verte. Procurava uma rota que tivesse como tema a sustentabilidade e autossuficiência. Franck me orientou e me mostrou todos os caminhos na ocasião e me convidou para ser administrador participativo da Mon Chère Vélo, assim nos tornamos amigos. Ficamos nove meses trocando emails e informações sobre meu projeto, éramos amigos virtuais e ontem nos tornamos amigos reais. O primeiro contato virtual e a amizade iniciada virtualmente foi essencial para nos aproximarmos, mas chego à conclusão que isso não substitui a presença, o toque, o aroma ou o aperto.

A experiência de passar dois dias com uma família francesa em Bourges foi incrível. Bourges fica no meio da França, tem pouco mais do que 66.000 habitantes e é famosa pelo festival "Le Printemps de Bourges" que atrai vários nomes da música internacional. Vivi um pouco da vida deles, uma família de classe média. Ele me mostrou com orgulho a sua adega que exibia os xaropes Monin, típicos daqui com mais de 90 sabores. Fui acompanhar a Heloise para a sua primeira aula de dança num conservatório público, diga-se que conservatório. Aprendi o valor dado por eles à sua história, que as coisas não são tão substituíveis assim tão facilmente. A história da vida e dos encontros são valorizados, sim.


Acima o Conservatório de Dança e Música e abaixo os caixotes de compostagem de lixo urbano



Franck me arrumou uma entrevista com um jornalista de um jornal local. Encontrei com ele hoje e o tema foi o Projeto Giraventura, mais especificamente, o Projeto do Meridiano Verde. Benjamin, um jornalista nascido na vila de Carcassone, aliás uma das vilas que vou cruzar, ficou curiosíssimo com o projeto e ficou me entrevistando por 40 minutos. Franck também me levou ao Ofício de Turismo, foi feita uma foto oficial do primeiro brasileiro a passar por Bourges atravessando o Meridiano Verde em nome da sustentabilidade e da autossuficiência. Poderia acabar aí, não? Pois é, não acabou. Franck me acolher duas noites na casa dele e da família, almoçamos, jantamos e agora no fim de tarde me levou para conhecer a cidade na visão arquitetônica dele. Paramos eu, ele e a Heloise na lindíssima Catedral de Saint-Étienne, patrimônio mundial da UNESCO e que começou a ser construída no século XII; também me explicou em detalhes as fases de construção das torres e dos vitrais; isso não tem preço.


Acima e abaixo a Catedral de Saint-Étienne


Sinto que o que falta para as pessoas é amor, carinho e diálogo. Quando você está de coração aberto, você pode mais. Quem se ilude com número de curtidas, número de visualizações e número de "amigos" está no caminho errado. Nada substitui o olhar, o abraço.

Amanhã vou para a oitava etapa da minha viagem, Saint Eloy-d'Allier, 75 km daqui e a ideia é dar uma estilingada de oito dias seguidos pedalando. Vou viver mais uma história e aproximar mais o meu coração de tudo e de todos que estão comigo e quem está, sabe que está, porque nunca estive sozinho nessa viagem, nunca. Vamos juntos até Barcelona, vai?

Boa noite, Brasil!


Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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