Pedalando a Sully-sur-Loire


►Havia uma expectativa para conhecer essa cidade, primeiro porque fica no Vale do Loire e depois porque seu castelo famoso, maravilhoso e maior atrativo da região.


Levantei muito cedo hoje, pois queria tentar chegar cedo para conhecer o castelo, passar a noite na cidade e rumar amanhã para Bourges. Todo o planejamento em cima, mapa de navegação aberto sob meu laptop para que fosse preenchido como primeira ação do dia. Acordei e pulei da cama, fui já anotando os dados, a temperatura estava nove graus e a expectativa era de dia bom, vento norte (estava indo para o sul), 10 nós, apenas uma aviso. Tomei um café da manhã no albergue, aproveitei e fiz um sanduíche caprichado para comer no caminho, peguei os alforges e desci para fazer o check list final da bike, quando uma surpresa: pneu traseiro murcho. Não tinha mais câmeras de ar, já tinha usado uma, o jeito era consertar o furo. Fui rápido na história, arranquei o pneu na raça, sem espátula, o enchi e o levei a uma pia para procurar pelo furo. Passava, passava o pneu dentro da água e nada da câmera borbulhar. Não havia furo e a pergunta ficou na minha cabeça, será que é problema na válvula? Se sim, piorou porque aí teria que ter obrigatoriamente um pneu reserva para uma eventual emergência. Montei de novo o pneu, o enchi meio desconfiado, coloquei os alforges e comecei a pedalar na coragem às 9 h da manhã, mais tarde que o previsto, paciência. Pedalava os primeiros quilômetros meio grilado, achando que eu poderia ficar na mão a qualquer momento em pleno domingo. Domingo aqui não funciona nada, nem farmácia. Afastei de mim esse pensamento ruim e pensei que se eu me apegasse àquele planejamento com unhas e dentes, a coisa não ficaria boa. Planejar sempre é bom, mas temos que estar aberto a mudanças de percurso, não somos os donos da verdade em nada, aliás somos insignificantes perto do tudo. Humildade, Nestor!


Comecei a olhar para o lado positivo, a estrada estava propiciando um lindo domingo para mim. Sem carros, temperatura agradável, vento enjoado de frente mas tudo valia a pena. Caminho entre florestas, fazendas e grandes plantações de cana. Tirei várias fotos aproveitando o Sol baixo e fui pedalando e fluindo. Até o quilômetro 40 estava ok, já era meio-dia, parei para comer o sanduíche e comprar um refrigerante numa cidade a qual achei um bar aberto. Aleluia! Comprei mais água, parti novamente. Sully-sur-Loire estava mais 45 km de onde eu me encontrava. Começou a esquentar, e a cada minuto, cada vez mais. Comecei a ter problemas com a bagageiro da bike. Os alforges batiam nos raios das rodas de vez em quando e eu tinha que parar e ajustar cada vez. O problema começou a ficar frequente, não havia uma sombra para me acolher. Parei de vez, peguei a silver tape que serve pra tudo, dei um laço embaixo do bagageiro, ele estava entortando, não estava suportando o peso dos alforges. Arrumei, comecei a andar mais lento. Minha água estava acabando. Nas vilas por onde passava, todas as casas fechadas, pareciam cidades fantasmas. Faltavam 20 km para o final e o termômetro do GPS marcava 40 graus. Parei numa esquina já estafado. Olhei para frente e uma longa subida, interminável. Peguei a caramanhola, fazia sinal aos motoristas mostrando a caramanhola vazia, ninguém parava. Decidi continuar, encarei a subida e no final dela tomei o último restinho já quente. Faltavam dez quilômetros, quando foi a última vez que olhei no GPS, não queria fazer contagem regressiva, queria pedalar. Finalmente comecei a chegar perto de Sully, quando vi uma indicação na estrada, Mc Donalds 24 hs à esquerda. À princípio, achei que fosse meu delírio avistar aquela placa, mas me aproximei e realmente era real. Entrei no Mc pingando de suor. La dentro, o melhor ar-condicionado que já senti nos últimos tempos. Pedi um refrigerante de um litro, sundae, água. Não queria sair de lá, por mim, eu moraria lá. Uma hora depois desse êxtase, voltei a pedalar, agora indo em direção à cidade, passei sob o Rio Loire, estava baixo. Avistei o castelo de Sully. Fui direto à informação turística, pois hoje a meu anfitrião daqui não poderia me receber, me avisou quando tinha acabado de chegar. Arrumei um albergue, subi e tomei um banho. Dei uma volta básica na cidade, pelo menos para ver o castelo por fora, ele é lindo! Eu me imaginei como um príncipe da era medieval, morando nele. Acontecia uma feira de agronegócios numa área grande logo atrás do castelo, fui até lá, só bizarrice, comi algo e voltei ao albergue.


Decidi ficar aqui dois dias. Quero conhecer o castelo com calma, quero tomar um banho no rio, preciso arrumar meu bagageiro, comprar outra câmera, passar na farmácia e ir ao mercado. É muita coisa, preciso de um tempo para seguir viagem, organizar minha mente. Amanhã é segunda, tudo abre.

Já avisei ao Franck que não vou amanhã para Bourges. Bourges pode esperar!

Passei muito tempo vagando nos meus pensamentos no dia de hoje, veio bastante coisa boa, mas também coisa ruim, refletiu diretamente no meu dia, acho que dispersei. É hora de acalmar, reencontrar novas portas e serenamente voltar a ser eu mesmo. Boa noite e até amanhã aqui em Sully.

Passei muito tempo vagando em mim(...) Preciso abrir janelas.

Clarisse Lispector


Nestor Freire, engenheiro e cicloviajante

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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