EP. #37 - Bassano Romano / Colle Biadaro / La Storta / La Giustiniana / Tomba di Nerone / Roma


►Não dormi essa noite! Tensão desde antes do jantar que seria depois da missa das 18:30 hs. Encontrei com Dom Alessandro que me informou que não deveria me atrasar para o jantar e no horário dito, quem disse que eu achava o refeitório? Fiquei andando feito barata tonta naquele monastério gigante gritando pelos corredores: Dom Alessandro? Nada, nenhuma alma me ouvia. Tentei voltar para o meu quarto, também não consegui, me perdi naquele labirinto. Quando foram 19:45 hs aparece Dom Alessandro, nervoso, perguntando por onde eu andava. Ele me acompanhou, abre uma porta, abre outra e fui parar dentro da clausura, era lá o refeitório. Um pouco mais calmo, sentei para jantar, jantei com um padre de Roma que me encheu de medo de vir para cá. Falou que o caminho que eu pegaria era complicado, muitos carros, que não deveria ir de bicicleta até o Vaticano pois seria assaltado, enfim, depois disso tentei dormir, não consegui, tomei remédio e fui pegar no sono umas 4 hs. Às 7 hs já estava de pé e pilhado. Abri a janela e havia uma névoa que encobria toda a mata em frente, olhei, refleti e falei a mim mesmo: cheguei até aqui, vou encarar.

Saí quando o sino tocou às 8:30 hs. Respirei fundo, me benzi e pedalei. Eram 68 km que me separavam de Roma e a mínima ideia do que me esperava. A primeira hora de pedal foi gelada, 15 graus,percorria a estrada com a cabeça num único objetivo, terminar minha jornada são e salvo. Comecei numa estrada de carros chamada Via Cassia, até então pouco movimentada. No km 12 peguei uma vicinal e aí o astral começou a ficar melhor, comecei a pedalar sozinho por uma estrada pequena, de asfalto mas me via única. Foi o tempo necessário para relaxar, me livrar das tensões e perceber que estava ali por uma missão pessoal e que tudo o que havia feito até então tinha sido o melhor e de coração. Não havia porquê de dar algo muito errado nessa reta final. Pensei positivo.


Novamente a rota que tracei foi caprichada, entrei no "Parque Naturale Regionale di Bracciano-Martignano". Fiz um cicloturismo mountain bike para chegar ao final desse parque, mas tudo com muita cautela. Desci e contornei parte do Lago di Bracciano. Lindo, uma área de lazer e esporte para os italianos mais endinheirados.



Olhava constantemente no GPS verificando a minha navegação e a quilometragem final. A tensão e o nervosismo da chegada eram eminentes. A 25 km do final vi um ciclista atrás de mim que começou a me acompanhar. Chegou do meu lado e fez as perguntas básicas, de onde vinha e para onde ia. Ficou pasmo quando falei que vinha de Canterbury e decidiu me escoltar até 20 km antes de Roma. Conversamos bastante, me tranquilizou quanto à chegada a Roma, se chamava Franco, deu seu telefone e pediu para que eu lhe telefonasse se houvesse algum problema. Nos despedimos a 19 km do fim, foi me último anjo.


►Entrei definitivamente na região metropolitana de Roma, o coração começou a bater mais forte e o choro prendia na garganta. Comecei a percorrer o anel viário e fiquei mais aliviado; não é tudo o que falaram, pelo menos para um paulistano brasileiro que pedala em São Paulo. Mesmo assim fui com cuidado, vigiando os carros no retrovisor. A 15 km do fim parei para tomar um suco num posto de gasolina. A essa altura não sabia se queria chegar, fiquei lá, sentei, comi um sanduíche e dei um tempo. Respirei fundo e falei para mim mesmo: vou terminar! Andei mais uns 5 km, entrei na cidade, muito trânsito engarrafado, sábado, um acidente na via. Passava pelos carros sem tomar conhecimento, parece que Roma era minha e não daqueles carros. Peguei uma longa descida quando finalmente avistei a ponte sobre o Rio Tiber. Não havia mais dúvida, eu havia chegado em Roma, parei em frente ao rio para tirar uma foto, sentei na sarjeta e comecei a chorar, não me continha. Olhava para a bike à minha frente e parecia que assistia a um filme de todos os dias, de sol, de chuva, de calor e frio que pegamos juntos. Via o Mar Mediterrâneo de Marina de Pietrasanta, sentia a falta de ar que tive nos últimos metros de Grand Sain-Bernard; tudo isso em questão de segundos. Levantei novamente, quis seguir viagem, as pernas travaram, as dores dos ombros, as tendinites, se manisfestaram como se algo estivesse gritando para sair de mim. Caí no chão de bruços de frente para o Tibre, olhei para o céu e pedi a Deus que me conduzisse em paz até meu ponto final, a estação de Roma Termini. Novamente respirei fundo, montei nela, olhei para frente e segui, eram 5 km até Roma Termini. Nas ruas, tinha a impressão que as pessoas me olhavam, ou parece que eu queria ser visto por um feito tão incomum a um europeu, quanto mais a um brasileiro. Agradecia sem parar a tudo e a todos que me proporcionaram essa experiência.


Cheguei em Roma Termini, era meu ponto final do GPS. Era o fim da jornada, queria meu banho, queria dividir com quem realmente torceu por mim e sei que foram poucos. Quero inspirar que não acredita, hoje posso ser herói para alguns, mas principalmente sou herói para mim mesmo na Via Francigena, que hoje me deu um dos maiores troféus de felicidade da minha vida, a sua inesquecível conquista!

#viafrancigena #itália

Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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