EP. #27 - Fiorenzuola d'Arda / Alseno / Fidenza / Medesano / Felegara / Ramiola / Salita / Piant


►A Itália derrete! Boa noite, sim, por aqui mais de três meses sem chuva. Os rios secaram, a temperatura beira os 40 graus com umidade baixíssima. Está assim em todo país, li hoje no jornal

Certo que já passei perrengues de temperatura assim na Estrada Real subindo a Serra de Carrancas, não que esteja acostumado, mas acho que sei até onde posso chegar sem cair no chão. É desagradável e desgastante. Estava pensando hoje durante os últimos quilômetros da jornada, o que é maia sofrido, subir os 2.400 m do Grand-Saint-Bernard sentindo falta de ar ou subir 1.100 m, como fiz hoje, à 40 graus de temperatura no asfalto. Sinceramente, acho que hoje foi pior, talvez também pelo desgaste até então de já ter pedalado quase 1.400 km. Estudei essa região e sei que estou num lugar de montanhas, virão mais, então a única coisa que se há a fazer é sair o mais cedo possível.

O dia começou lento, muito lento. Apesar de uma boa cama a noite para deitar é aquela coisa que conta muito, o ambiente. Fui parar num hotel vagabundo e caro na beira de estrada. Cheio de caminhoneiros e o povo do hotel/restaurante pouco se lixando para peregrinos da Via Francigena. O pior é que esse hotel estava na lista do Dormifrancigena. Enfim, depois de tomar um péssimo café da manhã, quis sair de lá o mais rápido possível e peguei estrada destino final, Cassio, uma vilinha que ninguém conhece perdida entre as montanhas.


►No meio da estrada, uma espécie de um castelo, que sem querer invadi a propriedade. Quando os cachorros vieram para cima de mim, dei meia volta. Tirei foto de longe e na propriedade havia uma área para secagem de uvas, talvez para elaboração de um vinho. Segui em direção a Fidenza (foto abaixo) e lá, parei num bar para comer algo.



►Sinto falta de frutas aqui, como muito carboidrato, ontem à noite comi uma pizza naquele restaurante ruim. Enfim, pedi uma salada de frutas e um suco de limão, dei uma olhada na cidade e continuei viagem sempre seguindo as placas da Via Francigena. Quando cheguei à cidade de Medesano, parei para almoçar. Perguntei sobre o almoço e a dona do restaurante me mostrou um freezer com um monte de congelados. Escolhi um ravióli sei lá do que e ela esquentou para mim, mais ou menos.

A essa altura o calor estava aumentando, fiquei preocupado e decidi pegar estrada novamente. Hoje o GPS bagunçou a minha cabeça. Ele não sabia o que queria, mas eu sabia sua intenção, era me deixar na estrada secundária e eu insistia em sair dela. Até então ainda estava razoável, tudo plano, sabia que iria ter morro, quando finalmente cheguei à cidade de Ramiola, onde havia um pedágio para entrar na autoestrada E33. O GPS me mandou para lá. Eu disse, você está louco, quer que eu ande numa autoestrada? Vou ser preso! Fiquei irritado com ele, desliguei a navegação e fui até o pedágio e perguntei para um funcionário como se fazia para chegar a Cassio. Ele me disse para seguir as placas do Passo della Cisa, caso contrário nunca chegaria nessa pequena vila. Então, seguindo a rota indicada, passei pela ponte e fiquei incrédulo com a secura do rio. O rio simplesmente se foi, evaporou, triste! A essa altura o GPS já marcava 42 graus.



►No km 50, começou a subida no morro, meu Deus, que coisa impressionante, muito quente, o asfalto fervia. A água que eu tinha comprado e colocado nas garrafas esquentou e eu a tomava assim mesmo. Num momento, vi um carro parado em frente a uma fonte, não tive dúvida, parei também. Não só enchi minhas garrafas, mas enfiei minha cabeça embaixo d’água, a essa altura já tendo alguns delírios pelo excesso de calor. Continuei viagem e só subida, não parava nunca, uma curva atrás da outra e eu na esperança de ser o topo do morro e nada.




► Foram 14 longos km de subida sem navegação do GPS, até que vi um motoqueiro parado na estrada e o perguntei de longe: “Per andare a Cassio? ”. Ele me respondeu: “4 o 5 quilometri, buon viaggio! ”. O detalhe é que depois disso as subidas não pararam, mas eu me senti no limite e parei para empurrar. Empurrei um quilômetro, mudava de pista toda hora procurando as sombras, até que finalmente cheguei no topo do morro, 1.043 m, faltando aproximadamente 3 km para se chegar a Cassio. Tive a certeza de que se eu estivesse com aqueles 4 kg a mais que despachei antes de ontem para a casa do Alessandro, não conseguiria subir esse morro. Fiz uma descida com o corta vento totalmente aberto e eu tomando aquele ar de frente. Cassio chegou e imediatamente quando vi uma mulher na rua, perguntei-a onde era o Albergue da Via Francigena. Ela me indicou e por lá fiquei. Já cheguei lavando as minhas roupas que estavam imundas e suadas. Subi ao quarto, estou num quarto com uma cama e dois beliches. Há mais um quarto com outro peregrino passando mal (deve ser de calor), vou ficar onde estou, sozinho. Dia muito difícil, mas são dificuldades que temos que enfrentar na vida, não?

Hoje minha irmã me deu uma “bronca” pelo fato de ontem eu andar em estrada com caminhões. Não tem o que fazer pois é o caminho. Não tenho medo de ser atropelado porque talvez a precaução de “ficar mais esperto” que eu tomo aqui, seja equivalente a de não ser assaltado em São Paulo. Minimizar sem neura a chance do pior, só! Medo todos temos e sempre teremos, penso que se faz diferença quando se sabe lidar com ele; não fugir dele! Beijo a todos que leram o meu texto, talvez não tenha ficado tão rico, mas fiz rápido pois a conexão onde estou é muito ruim. Boa noite e amanhã tem mais Via Francigena entrando definitivamente na Toscana.

#itália #viafrancigena #vídeo

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Nestor Freire, engenheiro e cicloviajante

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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