EP. #26 - Termi di Miradolo / Camporinaldo / Statale Mantovana / Corte Sant'Andrea / Valloria /


►"A Via Francigena pretende ser o Caminho de Santiago, mas está a anos luz dele!". Começo meu post hoje exatamente com a impressão que tive hoje durante o trajeto, mas antes queria falar um pouco de como começou o meu dia.

Tive uma boa noite de sono apesar do calor, mas acordei quebrado, todo doído, o esqueleto doía e passou pela minha cabeça por alguns segundos a possibilidade de ficar mais um dia em Termi di Miradolo. Sorte que essa dúvida durou poucos segundos. Tomei um café da manhã muito ruim nesse hotel também ruim, subi ainda meio injuriado, tomei um banho pra acordar, arrumei as coisas e parti. Não teve jeito, acho que se eu ficasse mais um dia nessa cidade, cairia em depressão. É difícil de explicar, não é questão de levantar as pernas para cima e falar, nossa que bom que hoje é dia de relaxamento. O ambiente conta também e quando você sente o ambiente meio "down", sem jeito. Tchau ou "ciao", como dizem aqui.

Hoje, iria trocar de região, estava até então na Lombardia e sabia que iria para a Emilia Romana. Sabia também que passaria pela cidade de Piacenza. Pé na estrada, quer dizer no pedal nos 30 graus de temperatura logo de manhã e de repente após meros 5 km (a cabeça ainda não estava no clima), outro fato, voltei para aquela estrada cheia de caminhões de ontem. Não acreditei, parei, olhei no mapa rotas alternativas, tentei quebrar a rota por algumas fazendas mas me dei mal pois elas terminavam no nada. Não teve jeito, tive que voltar a pegar a estrada e depois de pedalar mais alguns quilômetros, uma placa da Via Francigena. Esse foi meu comentário inicial, peregrinos, bicigrinos, ou seja lá o que for da Via Francigena, o caminho na Itália é esse - paralelo a uma estrada cheia de carros e caminhões. A questão que fica é: como a Via Francigena pode pretender fazer frente ao Caminho de Santiago com uma rota dessas? Enfim, era o que tinha para o momento, eu enfrentei. Pedalando tomando o maior cuidado, estrada péssima, cheia de buracos, sem acostamento, lembrou a BR 040 da minha viagem da Estrada Real, a qual tive que enfrentar por alguns quilômetros aterrorizantes também. Mas de repente, tudo mudou! Passaram dois ciclistas por mim e entraram numa estrada de terra à direita. Fiquei esperto!


Cheguei mais perto do desvio que os dois ciclistas fizeram e o que vejo? Uma placa da Via Francigena! Que felicidade, porque até então eu estava com fome, de mal humor e pedalando numa condição que eu odeio. Enfim, entrei na tal estrada de terra. Poucos quilômetros pedalando eu simplesmente fui do inferno ao paraíso em menos de 500 m. Entrei então num trecho chamado "Ciclovia del Po", que terminaria em Piacenza, uma das cidades que queria chegar.


A ciclovia? Linda, hora de areia, hora de asfalto, passava entre fazendas e contornava o Rio Po. Árvores simétricas, vento, uma paisagem deslumbrante e o melhor, o cheiro de natureza.



De uma hora a outra, o astral subiu exponencialmente. Fui da água ao vinho em questão de segundos, pisava em ovos, não acreditava na mudança de forma tão repentina e fui lentamente me adaptando a ela.


►As coisas passavam na minha frente como um filme de Hitchcock, sabe, aqueles em que as fatos acontecem sem você menos esperar; eu pedalando bem devagarinho parando em vilinhas com igrejas charmosas, pontos sagrados até que 29 km depois, alcancei Piacenza, na Emília-Romanha. A chegada foi triunfal, passando por uma ponte cortando o Rio Po, também através de uma ciclovia.


Passei pela cidade já procurando restaurantes, mas Piacenza é tão simpática que fiquei rodando meia hora antes de parar em frente a Catedral para comer. Achei Piacenza uma cidade alegre, muitos ciclistas e arquitetura linda da Piazza Cavalli.



Com certeza uma cidade com muito o que se fazer, Museu de História Natural, teatros, mas não seria o meu caso, estava ali de passagem. Acabei parando em frente ao Duomo (abaixo) e lá, num restaurante.


Pedi um "gnocchi al gorgonzola", um refrigerante e de sobremesa, um tiramisu, pela bagatela de € 18,50. Muito boa a comida, carboidrato da hora para a continuação do pedal.

O dono do restaurante ficou curioso com a bicicleta e começou a olhá-la, viu pela placa que era brasileiro e começou a conversar em italiano com um casal que estava sentado logo atrás de mim. O casal, o italiano Marco Marcoratti e a ucraniana Nataliya, curiosos, começaram a conversar comigo espontaneamente.


Foi o tempo para eu lhes contar que estava vindo da Inglaterra para o papo fluir de vez em inglês, óbvio. O auge foi quando falei que tinha um blog e dei meu cartão a eles, aí a amizade se selou. Contaram para mim que eram noivos, que se conheceram através do Facebook e que iriam casar agora em setembro, inclusive fui convidado para o casamento! Falaram que eu deveria conhecer a Ucrânia, que é um lindo país e o dia que quiser ir para lá, onde Nataliya possui casa, ou mesmo voltar para a Itália, eu seria o hóspede deles. Quanta gentileza, trocamos mais informações, tiramos fotos e nos despedimos. Puxa, saí tão feliz, criei uma amizade sem interesse, apenas pelo fato do Marco, muito gente boa, e sua noiva Nataliya se espantarem pela minha disposição de sair da Inglaterra para ir a Roma e ficarem encantados com o projeto Giraventura.


Continuei minha viagem, estava quente, não queria rodar muito hoje e a previsão era parar nos próximos 20 km pelo menos. Voltei para a estrada, sim, a mesma com placas da Via Francigena, mas agora em melhores condições com acostamento, algumas ciclovias e um asfalto bem melhor. Depois de 68 km rodados alcancei a cidade de Fiorenzuola d'Arda, nada demais, apenas uma cidade para descansar para amanhã iniciar uma nova história. Só sei que amanhã é dia de montanha, pois estarei prestes a entrar na Toscana.

Hoje, tive certeza de mais uma lição de vida, muito a ver com aquela citação de Nietzsche que fiz no episódio #22 - o mundo vai tentar lhe dissuadir, então se você não estiver muito certo do que deseja, não terá força para enfrentar os percalços e conseguir o que seu coração realmente quer. Sem dúvida, o autoconhecimento é o caminho para uma vida mais saudável! Boa noite, Brasil!

#viafrancigena #itália

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Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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