EP. #23 - Grand-Saint-Bernard / Aosta / Nus / Gros Breil / Châtillon / Saint-Vincent / Vèrres / Arna


►O dia começou com muito frio em Grand-Saint-Bernard, um grau em pleno verão. À noite choveu e quando eu abria janela logo cedo e vi as condições climáticas, já separei a minha calça de chuva e todos os casacos que tinha direito. Ainda semi-recuperado da subida de dois dias atrás, nada me abalou hoje, nem o frio, assim tão logo eu fiz o check-out, botei o pé na estrada novamente, mas antes uma última foto em frente a Saint Bernard para uma benção final.


►Foram pelo menos 30 km de descida num asfalto de fazer inveja a qualquer speeder


►Num frio de entrava por baixo dos meus casacos, a descida foi um momento especial. Olhava para o topo e via a Suíça indo embora, ficando para trás, mais uma história especial que fica com muito carinho na minha memória. Descendo pelas estrada religiosamente bem construída, sem um único buraco, asfalto limpo e bem sinalizado, cheguei a 50 km/h e sempre uma parada de vez em quando para evitar o superaquecimento dos freios. Foi tudo bem, graças a Deus. Já no Vale da Aosta, a temperatura não só mudou mas a umidade vinda das montanhas ao redor começaram a fazer me derreter por dentro. Não havia lugar para parar, muito tráfego, principalmente de motos, assim entrei em Aosta. Fui até a informação turística, carimbei meu passaporte e aproveitei para arrancar a roupa, já estava passando mal. Não gostei de Aosta, cidade lotado, talvez por ser sábado e naquele momento não tinha muita noção que estava na Itália. Passei pelo menos 19 dias falando francês, como você muda a tecla SAP para o italiano de uma hora para outra? Impossível!


►Apesar do lindo portal, a Catedral de Aosta, arquitetura românica, não estava cheia mas eu não cheguei a entrar nela. Queria ir embora logo, não gostei de Aosta, estava muito cheia, muito calor, queria pedalar e sentir o vento mesmo que fosse quente. Enfim, parece que os Deuses me ouviram e não somente mandaram um vento, mas um vento contra pelo menos durante uns 20 km do percurso. Pedalar num plano com vento contra é como pedalar numa subida sem vento, mas enfim foi meu pedido e assim fui atendido. SAir de Aosta também foi trabalhoso, a cidade é grande, inúmeros viadutos e nem o GPS conseguia se entender as vezes. Aosta fica numa vale, muito bonito por sinal cercado por montanhas de ambos os lados.


►Continuei pedalando forte em minha rota em direção a Piemonte. Na verdade, queria chegar na fronteira entre Piemonte e o Vale da Aosta e essa cidade se chamava Pont Saint Martin. Já eram quase 13:30 hs quando a fome começou a apertar e uma coisa que já vi que aqui é muito diferente do que na França, há mais opções lugares para comer. Cruzei dois peregrinos de mochila na estrada, não parei para conversar mas de repente chegou um ciclista do meu lado e perguntou: "Nestor, tutto bene?" - a princípio tomei um susto, depois que eu me liguei que ele viu a plaquinha com meu nome presa no bagageiro da bike. Cláudio, um italiano muito gente boa que estava num speed. Falei para ele: "Ho bisogno di mangiare!". Totalmente compreendido e Cláudio me levou para uma cidade próxima chamada Saint-Vincent (foto abaixo) e me deixou na porta do restaurante. Perguntei a ele se não gostaria de almoçar comigo e ele se desculpou mas falou que a mãe dele o aguardava. Entrei no restaurante e de cara queria massa pra me dar energia nesse calor, um espaguete iria cair bem e foi isso que eu pedi. Demorei um tempo no restaurante e quando estava saindo, olha quem aparece novamente, o Cláudio e uma amigo. Começou a explicar ao amigo que este brasileiro tinha saído da Inglaterra e se dirigia a Roma. Perguntou se tinha gostado da comida e aparentemente com muito orgulho se despediu de mim.


►Continuei minha jornada rumo a Pont Saint Martin, ainda faltavam uns 25 km mas estava mas depois do espaguete, dois refrigerantes e uma garrafa de meio liro de água, minha vida melhorou. Motivado pela energia do estômago passei por lugares bem diferentes dos que eu estava acostumado a ver, muitos castelos em cima das colinas até finalmente depois de 92 km de estrada chegar a Pont Saint Martin. Fui muito bem recebido num B&B que estava na lista de indicações do Jeff. A "Casa Antica" (foto abaixo) realmente é bem antiga e a proprietária Ornella me levou ao meu quarto com mais três camas, porém vazias até então, explicou-me da "prima colazione" e me cobrou € 25,00 por tudo, achei razoável. Tomei um banho maravilhoso, lavei minhas roupas e me dirigi ao centro para conhecer um pouquinho daqui.


Desde a hora que eu cheguei uma tal de Lys me perseguia. Era Lys pra cá, Lys para lá, "Torrente Lys" e eu, curioso, fui atrás para saber que diacho era isso. Essa tal dessa Lys é um rio que é um afluente hidrográfico do Dora Baltea. São 15 afluentes no total e Torrente Lys é um deles. Esses afluentes são as artérias alimentadas pelos grandes geleiras dos Alpes norte-ocidental, que sempre rodam com muita água e espuma. Mas por aqui Lys é a vedete da cidade porque bar tem nome de Lys, é Lys para nome de vale e até pra nome de bueiro. Pronto, me dei por satisfeito da minha pesquisa e agradeço muito ao Torrente Lys por agregar na minha vida! Só assim eu consigo dormir em paz! Que amanhã venham histórias bacanas de Piemonte!

#itália #viafrancigena

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Nestor Freire, engenheiro e cicloviajante

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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