EP. #8 Trefcon / Beauvois-en-Vermandois / Foreste / Aubigny-aux-Kaisnes / Lavesne / Tugny-ey-Pont /


►Nem todo dia é uma maravilha pedalar, você pode não ter acordado muito disposto, ou as vezes ser preguiça mesmo e hoje eu estava preguiçoso. Coloquei o relógio para despertar bem cedinho, avisei ao casal Winand que tomaria o café às 8 hs e partiria, nada disso aconteceu. Assim que o relógio despertou às 6:30 hs, abri a janela e a fazenda estava coberta por um nevoeiro seco, deveria estar uns 10 graus lá fora. Não deu outra, voltei para a cama e por lá fiquei até umas 7:30 hs até tomar coragem e arrumar todas as coisas, pesar os alforjes, etc. Saí do quarto e qual a minha surpresa? Um café da manhã preparado pela Madame Wynand. Geleias, croissant, chocolate quente e suco de laranja, muito simples, mas com certeza feito com carinho. Madame Wynand começou a conversar comigo, puxa, acho que sou umas dessas raras pessoas que para ali dizendo que quer chegar em Roma. Contou-me sobre a produção de leite na França e que não existem mais produtores independentes como no passado, que todos os produtores produzem para uma cooperativa que posteriormente distribui o leite, etc. A minha pergunta sobre o leite foi pontual porque me veio à cabeça essa manhã aquela cena trágica e ao mesmo tempo cômica do filme Bastardos Inglórios, 2009, Tarantino, em que logo no começo da história a personagem do comandante Hans Landa ,Christoph Waltz, entra numa casa de produtores de leite no interior da França. Conversa muito boa com Madame Wynand, quando chega Julie para nos fazer companhia. Bem, hora de partir! Voltei ao quarto, terminei de arrumar as minhas coisas, chequei a bike e fui me despedir e agradecer o casal Wynand pela hospitalidade.

Peguei estrada rumo a Tergnier. Estava muito frio, mas não ventava tanto. Coloquei minha capa de chuva para me proteger e parei já no primeiro quilômetro sobre uma cruz de Cristo. Troquei de luvas pois meus dedos estavam congelando.


►A viagem foi entendiante, caramba, estradão no meio das fazendas, passava por poucos vilarejos e nem um motivo interessante para fotografar. Foi assim durante pelo menos 33 km até eu alcançar a vila de Tergnier.


►Parei em frente a Marie, comi o restante do croissant que havia sobrado do café da manhã e bati um Ensure de chocolate, deu vontade. Não sei se é a atmosfera mas eu não paro de comer chocolate, comprei um Toblerone enorme e o devorei. Não consegui o carimbo do passaporte nessa vila, pois a igreja e a Mairie estavam fechadas. Rumei a Laon. Novamente, uma estrada chata, agora pior, muito movimentada, está certo, os motoristas respeitam e lhe tratam como se fosse um veículo, lhe ultrapassam mesmo que você esteja rolando totalmente à direita. Mesmo assim incomoda, pois olhava no GPS as distâncias e essas me desanimavam. Vieram vários tobogãs em sequência e Laon não chegava nunca. Até que na última reta, consegui avistar o vulto da catedral no topo da colina, fiquei animado. Eis, já estava aos pés de Laon.


►Entrando na vila, óbvio que da estrada já estava esperando pelo pior, uma subida final de 2 km a 13% de inclinação, ninguém merece. Isso para acabar de vez com as pernas. No final da subida encontrei um hotel, "Hôtel De La Banniere De France", por que tudo aqui tem nome elegante e difícil? Bem, tinha vaga e era aqui mesmo que iria ficar. A dona arrumou um canto da garagem para deixar a bike e rumei ao quarto para o sonhado e tão esperado banho. Puxa, contrariei todas as regras de economia de água hoje, me desculpem, pois não conseguia sair debaixo do chuveiro. Quando saí, saí meio tonto, deitei na cama e apaguei. Acordei uma hora depois, ainda meio anestesiado pelo cochilo e decidi conhecer um pouco da vila.

Laon (se pronuncia Lon), capital do Departamento de Aisne, é uma cidade fortificada, construída numa colina e conserva vários monumentos medievais. Laon foi a antiga capital do Reino da França entre os anos de 895 a 988 DC, sendo e residência preferida do Rei Pépin - 741 a 768 DC. A gigante "Cathédrale Notre-Dame de Laon" foi construída em arquitetura gótica entre 1160 à 1350 e é o maior charme da vila.


►Circulando pelos becos de Laon, eu me senti na idade média, não só pelo fato da arquitetura, mas sim pela atmosfera peculiar. Acabei ficando até um pouco mais tarde na cidade. Não pude deixar de fotografar a vila durante a noite mesmo estando cansado e ciente de que a jornada de amanhã será cansativa.


►Acabei saindo para caminhar na noite gelada, uma necessidade? Talvez. Não sei de onde vem esse meu impulso de conhecer, de ser um anônimo nesse momento, de ser um completo desconhecido entre essas pessoas que também vagam por aqui. Entretanto, dentro de mim encontro uma necessidade de partir, de deixar apenas boas lembranças àqueles que encontrei nessa jornada, sabendo que o dia de amanhã será diferente e novas pessoas e novos lugares aparecerão. Amo as pessoas próximas a mim, não as trocaria por nada, mas estou certo que essa desconexão repentina e total é o que mais constrange a maioria das pessoas a não mudar, a não arriscar, a ir a um caminho não tão claro, a permanecer na zona do conforto. Não sou melhor, nem pior do que ninguém, mas nesse momento estou aqui nos becos de Laon, de braços e peito aberto para sentir a vida de frente.


►Fui abençoado por ter chegado no dia do espetáculo de luzes da Cathédrale Notre-Dame de Laon, durante o dia ela estava assim:


►E assim à noite, durante um espetáculo de som e luzes de 15 minutos. Essa foi minha despedida de Laon!







#frança #viafrancigena

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Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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