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PALAVRAS OU GESTOS?

há 56 minutos
2 min de leitura

Quando a palavra encontra o outro


Há encontros na estrada que duram poucos minutos, mas permanecem muito tempo dentro da mim.


Há dois dias, parei num vilarejo no meio da minha rota para trocar a bermuda comprida, pois estava muito quente. Quando estava a partir, apareceu um garoto, acredito que uns 14 anos, carregando uma mochila escolar. Ele falou algo em turco, obviamente não entendi e ao mesmo tempo entendia pouco do meu inglês. Como tantas vezes acontece nesta viagem, recorri ao Google Tradutor.


Daí, o diálogo teve sequência e logo descobrimos que tínhamos pelo menos uma coisa em comum: o futebol. Ele era torcedor do Galatasaray. Falamos um pouco sobre o time, sobre futebol, sobre aquilo que conseguimos traduzir. Passados uns 5 minutos, tirei do meu bolso um pequeno chaveiro do Giraventura que geralmente carrego como souvenir para as pessoas que cruzam e marcam de alguma forma a minha trajetória.


Em seguida, ele seguiu o caminho dele, eu o meu e confesso aqui: o sorriso que recebi do garoto quando o presenteei me valeu o dia.


Já de volta à estrada, pedalando, fiquei pensando depois: o que exatamente foi falado naquele encontro? Quase nada!


A maior parte das palavras precisou ser traduzida para que o diálogo ganhasse elasticidade. Outras palavras certamente se perderam durante a conversação. Já outras, nem chegaram a ser compreendidas mesmo com o tradutor, que por sinal é bem ruim.


Penso que a palavra nunca seja suficiente por si só. Ela precisa do outro para ganhar sentido. Precisa de interpretação, de contexto, de olhar, de gesto.


Uma palavra pode dizer uma coisa para quem fala e significar outra para quem a escuta. Já um sorriso pode dizer aquilo que nenhuma tradução consegue alcançar. Um pequeno presente pode carregar uma mensagem muito maior do que seu valor.


Aqui na Turquia, onde o idioma é dificílimo de compreensão, tenho vivido isso no dia a dia.


Aquele garoto talvez tenha esquecido as palavras que trocamos. Talvez nem tenha entendido direito o que o gringo de bike cruzando seu país queria transmitir.


Eu, por outro lado, fiquei com o sorriso. E talvez seja essa a beleza dos encontros: nunca saberemos exatamente o que marcamos no outro, assim como nunca sabemos exatamente o que o outro deixou em nós.


E há momentos em que a palavra quase desaparece e talvez um sorriso baste, um gesto, ou até um chaveirinho.

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