Saint-Eloy-d'Allier / Tente só escutar!


►Dia estratégico, pensei ontem. Vou chegar a essa vila pois é a porta de entrada das montanhas. Descansarei e partirei no dia seguinte. Como um bom engenheiro, tudo pensado e calculado, mas esse engenheiro assim como qualquer um está sujeito a uma variedade de combinações que pensamos nós termos controle. Simples ilusão, somos seres que só achamos que controlamos.


Vocês vão entender que essa introdução é para contar a minha história de hoje. Cheguei à Saint-Eloy-d'Allier hoje, depois de pedalar 75 km a partir de Bourges. O caminho foi tranquilo, o calor deu uma trégua passei por campos de girassóis, cruzei a igreja e o castelo de Châteauneuf-sur-Cher (abaixo) e cruzei dois ciclistas holandeses (acima) pedalando pela região, trocamos emails e informações e partimos e ganhei uma estadia na faixa em Amsterdã no ano que vem.


Após 700 m de altimetria acumulada alcancei a vila de Saint-Eloy-d'Allier que não é uma vila é, é uma mini vila, duas ruas, algumas casinhas, uma igreja e acabou; encravada no meio da França no departamento de Allier, possui uma população de 40 habitantes. De antemão, sabia que por aqui existia um gîte (pequeno hotel), telefonei antes e a Therese me respondeu que poderia me receber às 16 h. Cheguei antes e aguardei. Pernoite fechada à bagatela de vinte euros com café da manhã, pensei que só descansaria e passaria a noite num lugar calmo, sem barulho algum, apenas com o badalar do sino da igreja a cada hora. Como de costume, tomei meu banho e lavei minhas roupas e me dei o luxo de fazer um tour pela pequena vila. O meu tour passava pela igreja, pelo memorial aos combatentes da primeira guerra e terminava no pomar do Sr François, marido da Therese. O tour do pomar foi o mais encantador, conheci o Sr François, de 67 anos, que com muito orgulho mostrou sua pequena produção de frutas e hortaliças. Aparentemente, um camponês francês bem simples.

Voltei ao aposento e já se passavam das 19 h quando a fome começou a apertar. Quando tinha chegado, falei para a Theresa que não havia trazido comida e tinha apenas um croissant para o jantar, comprado na vila anterior. Por volta das 19h30 desci para recolher minha roupa que estava secando e entrei na cozinha da casa. Na cara de pau, fui perguntar se poderia comer um pão ou alguns biscoitos que ela havia me servido na hora que havia chegado. A resposta foi: não, vamos jantar juntos, estamos terminando de preparar, sente-se. Não haveria notícia melhor que essa nesse momento. Sentamos os três à mesa do jantar, tivemos uma entrada de salada e uma pequena panqueca ao patê de salmão. Como prato principal omelete e abobrinhas, depois queijos, vinhos e de sobremesa um sorvete caseiro de framboesa.


Vou ser sincero que no fundo o meu desejo era jantar com eles, também pela comida óbvio, mas estava curioso para ouvir um pouco da experiência de dois senhores camponeses franceses. Sr François falou bastante e eu o ouvi bastante. Therese dava apenas uns pitacos e num certo momento, deixou-nos à sós. Durante a conversa enriquecedora, que passou por política, costumes e meio ambiente, ao ouvi-lo, percebi que não há bom senso em escutar o outro falar enquanto você só escuta, o desejo de manifestação de opinião, principalmente contrária, emerge como suor num dia quente. E essa foi parte mais legal desse encontro, você escutar o outro, acompanhando e analisando a sua linha de pensamento e aprendendo com isso. Dizem que deveríamos ouvir duas vezes mais do que falar, afinal temos dois ouvidos. Perceba que quando ouvimos o outro ao menos uma vez na vida e o outro NÃO lhe fala: "mas comigo foi pior", é aprendizado puro, porque quando se fala "comigo foi pior", quebra-se a linha de raciocínio de quem fala! E pode ser desde a coisa mais banal, do tipo, "ah, eu tive uma dor de cabeça" e outro ao invés do outro falar sobre a dor de cabeça dele, ele lhe pergunte assim: "como foi a sua dor de cabeça?". Resumindo, em algum momento na vida, você poder expressar a sua singularidade a alguém, e o outro ao invés de se expressar, aproveitar o seu raciocínio do outro só para engrandecimento, é algo fantástico. E foi exatamente isso que aconteceu nesse jantar. Eu simplesmente babei nas palavras e na experiência desse homem, um poço de cultura e experiência. Talvez tenha sido o diálogo mais singular da minha vida, no qual um perguntava, o outro respondia, um aprendia, o outro ensinava e vice-versa. Em certo momento ainda me perguntei, quem sou eu para ensinar um homem de 67 anos, mas sou, sou sim.

Desculpem-me, mas estou ainda meio passado com o que aconteceu nessas últimas duas horas, me perguntei se eu deveria ficar aqui mais uma noite para ouvir mais histórias e saber um pouco mais de tudo. Então, para refletir, ouça quem você ama, ouça quem é mais inteligente que você, apenas ouça e aprenda, guarde suas opiniões para você, não se manifeste ao menos uma vez na vida, vai lhe fazer bem.

Amanhã é dia duro de montanha, mas vou acordar e decidir se parto ou não porque hoje descobri que a teoria do tudo mora nesse pequeno vilarejo no meio do nada na França! Obrigado pelo acolhimento Sr François e Sra Therese.

Boa noite, amigos!


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Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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