Partindo Novamente Rumo Sudoeste


►Como é difícil se despedir, dá um nó na garganta. Ninguém sabia muito bem o que dizer, parecia que algo ainda forças ocultas faziam de tudo para não nos separarmos. Tudo começou ontem quando fui dormir, Marie e Jean-Christophe me informaram de um compromisso às 9 h de hoje, então me ofereceram ficar na casa sem eles para que eu arrumasse as coisas com calma e partisse tranquilo; recusei, falei que partiria com eles. Levantei eram 7 h, comecei a arrumar minhas coisas e quando foi 8h30 os dois ainda estavam de pijamas, mas me esperando para o café. Entreguei a chave da casa para eles, conversamos um pouco e comecei a descer minhas coisas para colocar na bike. Perguntaram se eu não queria levar um sanduíche, me deram uma maça, é muito difícil se despedir e acredito que até inconscientemente as pessoas acabam criando situações que tornam a despedida um ato quase que impossível. Para aliviar, sugeri de tirarmos um foto oficial, Jean-Christophe subiu correndo para se arrumar, assim como Marie. Já com todas as coisas colocadas na bike, fomos para fora e tiramos várias fotos com a minha câmera. Entraram correndo para buscar a câmera deles, tiramos ainda mais fotos. Após muitos e muitos agradecimentos da minha parte, beijos e abraços, subi na bike, dei um último "au revoir" e parti. Confesso que fiquei abalado dessa vez, travou a garganta, afinal estava há três dias com eles. Assim, fui pedalando ao novo destino bem devagarinho, nos primeiros minutos ainda de ressaca. O GPS apitava a todo momento falando que eu havia pegado caminho errado, parecia que eu não estava ali em cima da bike e pedalava apenas como forma de tentar esvaziar a minha mente desses últimos intensos trinta minutos. Comecei a pensar em outras coisas para me distrair e quando me dei por conta, estava pedalando dentro do aeroporto de Orly. Aí, caiu a ficha. "Que porra estou fazendo dentro desse aeroporto cheio de carros?" Sim, o caminho foi errado mesmo; não conseguia sair do aeroporto. Dei várias voltas entre o embarque e o desembarque, peguei contramão, subi na calçada e o GPS ajudava a piorar a situação recalculando o tempo todo e perdendo sinal. Juro que pensei em voltar para Paris quando vi uma placa. Parei, desliguei o GPS, tomei uma água, respirei dei mais umas voltas e finalmente consegui achar uma saída depois de uns 40 minutos rodando por lá. Que loucura tudo isso.


Na estrada novamente, e agora dentro de mim, comecei pedalar quando vejo à minha frente algo como uma moto do tipo "Hell Angels". Que nada, era um doido numa bike toda customizada com bandeiras dos Estados Unidos, caveiras e alforges de couro. Não tive dúvidas e gritei em inglês ao sujeito para que parasse. Encostamos na calçada e me desce um senhor de 80 anos de alcunha "Ferdinand L'américain". Eu sei que esse homem apareceu no meu caminho para me tirar definitivamente daquela fossa que me encontrava. Alegre e brincalhão, começou a me contar de suas aventuras, que ele próprio construiu a bike a qual pedalava, que tinha 80 anos, que tinha boa saúde, que atravessou a rota 66 nos EUA, etc, etc, etc. E o detalhe mais interessante, americano que nada, o camarada era francês mesmo. Depois me muitas fotos e um depoimento em vídeo que fiz questão de pegar, nos despedimos e tomamos nossos caminhos. Aquilo foi para mim o sopro para eu entrar definitivamente no meu percurso e dentro de mim e rumar à La Feté-Alais como havia planejado.



O meu próximo anfitrião do Warmshowers também era um casal. Eu me comunicava com Vincent que me receberia hoje em sua casa. Meu último diálogo com ele foi ontem e sua última pergunta a mim foi se eu tinha barraca ou não, respondi que não.

Dando prosseguimento ao caminho, fiquei encantado com o número de ciclovias que apareciam na minha frente, isso porque os franceses reclamam que "não há ciclovias nessa merda desse país". Já eram 12h quando passei por uma cidade bem charmosa chamada Corbeil-Essones para almoçar. Entrei numa creperia e comi dois crepes, um deles de Nutella. Resolvi dar uma checada nos meus emails e percebi que havia um email do Vincent, meu suposto próximo anfitrião, me dizendo que não poderia mais me receber por problemas familiares, pediu desculpas. Que surpresa de última hora, mesmo assim eu o agradeci. Comecei a pesquisar no mapa alguma cidade rumo sul para seguir a jornada. Minha intensão era pedalar pouco hoje, apenas 55 km, estava muito quente. Escolhi uma cidade que ficava mais longe, se chamava Étampes, rumei para lá. Pelas minhas contas, a distância havia aumentado, seriam 85 km e apesar do sol forte, eu fui. O trecho facilitou bastante, era uma região bem plana que cortava diversos vilarejos. Em um deles, passei dentro de um parque e um ciclista viu a plaquinha com meu nome e a bandeira do Brasil atrás da bike; colou ao meu lado, Frank era seu nome. Começou curioso querendo saber de onde eu vinha. Comecei a contar um pouco do projeto, quem era e porque estava percorrendo um trecho de 1.800 km. Não se contentando em ouvir a minha história e ao mesmo tempo pedalar, pediu para pararmos e assim, conversamos por um longo tempo. Dei meu cartão a ele, pedi para ele entrar no blog, falou que faria com certeza, me desejou "courage" e se foi.


Faltavam 25 km para Étampes e fui calmamente, dessa vez bem tranquilo e embora o calor tivesse aumentado, percorria hora ciclovias, hora trechos de estrada.


Cheguei a Étampes. Dei um giro na vila, bem pequenina mas estruturada. Passei nas escritório turístico, me arrumaram um albergue e aqui estou.

Amanhã quero levantar bem cedo, pela previsão vai esquentar e meu destino será Sully-sur-Loire, já no Vale do Loire, a última parada também antes de uma das mais aguardadas paradas depois de Paris, Bourges. Com direito a recepção oficial com o pessoal da Mon Chère Vélo e pousar na casa do amigo Franck Mussio que tanto me apoiou na preparação dessa rota.

Estou bem fisicamente até o momento, pedalando com a joelheira esquerda só por prevenção. O mata-mata começará a partir do quilômetro 600 e eu ainda estou no quilômetro 421, "se é bom, ou se é mal, só o futuro dirá." - Rubem Alves.


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Nestor Freire, engenheiro e cicloviajante

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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