Amiens à Agnetz


►Cheguei muito cansado à Amiens, assim que entrei na casa do Stephano e da Martine não saí mais de lá, afinal foram longos 112 km debaixo de sol. Fui muito bem recebido por eles, como já falei ontem.

O dia hoje começou cedo, 7h30. Tomei um relaxante muscular que dá um sono danado, muito bom, Dolamin, para quem quiser. Dormi feito uma pedra, mas acordei bem. Dormia no terceiro andar da casa e parte das minhas coisas estava lá embaixo. Desci para pegá-las e me surpreendo com a Martine saindo para trabalhar após ter preparado um belo de um café da manhã para mim. Nos despedimos, ela foi e o Stephano ficou. Ficamos conversando na mesa do café e até então eu não sabia se arrumava as coisas naquele momento e partiria ou se dava uma volta por Amiens. Após ele me contar um pouco da história de Amiens que foi praticamente destruída durante as 1ª e 2ª guerras; resolvi sair a pé mesmo para conhecer a cidade e os pontos que ele tinha me indicado. Quanto à minha pedalada diária, deixei para pensar depois.


Primeira parada, Catedral de Amiens, belíssima, imponente, gótica. Acho que nunca entrei numa catedral tão alta e segundo o Stephano a Catedral de Notre Dame de Paris caberia dentro dela. A catedral também é famosa pelo "ange qui pleure", um pequeno anjo que chora sob a tumba de um bispo. Fiquei quase uma hora na catedral parti em direção a casa de Julio Verne. Sim, Julio Verne é de Amiens, assim como Emmanuel Macron. Outra curiosidade, aqui foi feito o primeiro transplante de face do mundo. Nada demais na casa de Julio Verne, estava fechada para visitação no horário que estava lá, então parti para conhecer os Les Hortillonages d'Amiens, que é um lugar com vários canais rodeados de verde onde são oferecidos passeios em canoas para até doze pessoas. Me lembrou uma Veneza cheirosa. Por último, visitei um parque, Parc Saint Pierre. Bem, passeio terminado, voltei para a casa do meu querido anfitrião. Já eram 12h e resolvi que almoçaria e partiria para Cires-les-Melo, 85 km de lá. Stephano me convidou para almoçar, aceitei, um amor de pessoa, não sabia o que fazer para me agradar. Almocei e comecei a arrumar minhas coisas logo na sequência.


Já se passavam das 14h quando finalizei meu check-list e mapa de navegação (havia previsão de chuva). Eu me despedi do Stephano com aperto no coração e senti isso da parte dele também. Parece que estava esperando eu dizer que ia ficar mais um dia.

Então, peguei rumo sudeste em direção ao destino. Passei antes na catedral, carimbei a credencial e fui. A estrada começou depois de uns dez quilômetros, uma pequena serra com pista molhada e garoando leve e depois os caminhos foram ficando bem interessantes, passando por pequenas vilas campos de plantação de cana e moinhos de vento. O tempo variava entre essa garoa e um sol, bem tímido. Pelo quilômetro cinquenta, a chuva começou a apertar, mas ainda não tão forte, dava para continuar. Pedalei mais dez quilômetros e a chuva que não deu trégua, apertou de vez, uma tempestade. Por sorte, havia acabado de chegar numa cidade, Saint-Just-en-Chaussée. Reparei que havia farmácia e até cinema. Peguei a rua principal e avistei um mercado e foi para lá que fui fazer uma compra de almoço e janta na esperança da chuva passar. Saí do mercado, nada, a chuva continuava forte. Tive um estalo que deveria ficar nessa cidade e fui atrás de um hotel e para a surpresa, não havia hotel. Parei uma pessoa na rua e ela me disse que só havia hotel a 25 km adiante. Não tive outra opção, senão andar embaixo daquele aguaceiro. Vesti a capa de chuva e continuei. Com o corpo frio por ter parado tanto tempo, o vento gelado entrava pelo corta vento e me cortava alma. Sabia que pedalando iria melhorar, apesar da chuva não dar trégua. Passava pelas pequenas vilas e sempre olhava se não tinha uma hospedagem, nada. Havia muitas fazendas, sítios, comecei a pensar na possibilidade de pedir para dormir numa cocheira, como já tinha feita na Via Francigena no ano passado. Passava pelos pontos de ônibus e tentava reparar se não havia dois mastros para eu amarrar a rede e me enfiar dentro do saco de dormir. Algo me mandava continuar. Peguei uma pequena estrada numa imensidão de pastos a perder de vista, não passava ninguém, estava preocupado com o horário, já eram quase 19 h e começava a escurecer. Parei no meio da estrada, abri a sacola do mercado que era de papelão e havia se despedaçado. Estava sentindo a bike um pouco desestabilizada, achei que fosse por causa da sacola em frangalhos, então parei e aproveitei para comer um sanduíche embaixo daquele temporal. Ajeitei tudo novamente, dei uma olhada na bike e reparei que o pneu traseiro estava murchando, não acreditei. Peguei a bomba e enchi um pouco mais para ver se ele murchava rápido, não queria trocar o pneu ali de jeito nenhum. Saí com o pneu daquele jeito, mas preocupado, não sabia exatamente qual a distância da próxima cidade com o hotel e nem se ele iria aguentar. Fui pedalando preocupado e foi quando apareceu na minha frente, parecia miragem, mas era verdade, um ciclista sozinho, naquele temporal vindo na minha direção. Falei para mim mesmo: "não acredito no que estou vendo". Parei o sujeito e falei que estava em apuros, estava com o pneu murchando e precisava encontrar um abrigo o mais rapidamente. Ele reparou que estava nervoso, me pediu calma e me disse que dali uns cinco quilômetros eu encontraria algo simples. Deu todas as coordenadas em detalhes, desejou "bon courage" (boa sorte) e partiu rapidamente pela via encharcada. Enchi novamente o pneu traseiro para garantir e parti assim mesmo tentando imprimir pelo menos uns 25 km/h já que o vento estava favorável. Segui exatamente as coordenadas que o ciclista me deu quando finalmente eis que surge, um motel de péssimas condições. Não tive dúvidas, só precisava tirar essa roupa encharcada, tomar um banho. Desembolsei 30 Euros pela estadia, tudo bem, faziam três dias que eu não gastava nada. Cheguei a um motel na verdade, beira de estrada com caminhoneiros. Arranquei aquela roupa imunda, botei pra lavar e fui ao banho, deixando para ver esse pneu amanhã.


Quando pensamos coisas boas, atraímos coisas boas. Não adianta ficar se martirizando, há horas sim que temos que aceitar uma situação que se impõe sobre nós, afinal somos seres insignificantes perto desse universo. Não adianta brigar com o sentimento, tive uma grande prova hoje quando entrei em pânico uma vez que a situação piorava a cada minuto; estava frio, chovia, mas era para ser assim. A aceitação da vida como ela é, é o melhor caminho. A partir do momento que eu disse sim e abri meu coração para um simples pneu murcho, ele simplesmente me levou por mais cinco quilômetros. É a ebulição do amor em sintonia com essa vida que Deus nos deu e que muitas vezes é mal aproveitada. Senti o sim, esse amor eterno na pele. Como diria Nelson Rodrigues, "todo amor é eterno, se acaba, não era amor".

Amanhã em mais uma etapa, pedalo a Paris e sem dúvida levarei esse ensinamento de hoje. Quero você comigo também, você que chegou até aqui, que passa seus olhos por esse texto ainda meio desconfiado. Quero lhe pedir uma chance para acreditar que podemos deixar aflorar com um pouco mais de paz interior esse sentimento, você sabe, diga sim às coisas que você ama, é nossa oportunidade, diga sim ao amor, diga sim a você.

Até Paris, boa noite!


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Nestor Freire, engenheiro e cicloviajante

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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