Aire-sur-la-Lys, uma grande surpresa!


►Saí de Dunquerque tarde, demorei muito para arrumar as coisas, parecia até que não queria sair, não sei, dessa vez não tenho como explicar, batia um senso de responsabilidade, estava preocupado com meu joelho esquerdo, ainda com a história do capacete de ontem. Entretanto, sabia que enquanto não montasse na bike não me livraria de tudo isso. Montei, liguei o GPS que não queria me dar a rota que tracei, tentei, tentei e nada. Havia montado o plano de navegação no dia anterior, só deixei para anotar os dados de tempo e temperatura antes da partida. Sabia que iria ter tempo bom, vento leste. Olhei no mapa do GPS, marquei um ponto no meio D916 e me direcionei pra lá, sentido sudeste. Sentia que algo me segurava e tentava me livrar disso a todo custo, fui, deixei os pesos para trás.

A saída de Dunquerque é por ciclovias arborizadas. Sim, ciclovias, espalhadas por parques e por toda a cidade. Os carros param, respeitam, buzinam quando são ciclistas.

O percurso de 56 km era plano com desnível acumulado de 250 m. Todas as condições a meu favor, não teria o que dar errado e aos poucos o dar errado foi ficando para trás. Fui conversando comigo mesmo na bike e já encontrando a primeiras alamedas do Meridiano Verde.


Minha primeira parada foi numa igreja, vila de Arnèke para tomar um suco e comer um sanduíche. Continuei viagem até que um ciclista me encontrou. Seu nome, Gontrain. Viemos conversando por longos quilômetros, ia para casa de um amigo. Ficou fascinado pelo meu projeto, queria me auxiliar de todas as maneiras, falou dos "perigos" dos carros nas ruas e para eu tomar cuidado aqui ou ali. Paramos numa bifurcação, eu ia pra esquerda, ele para a direita. Pedi para ele gravar para mim a explicação que havia me dado, fez com o maior carinho. Dei meu cartão, nos despedimos e me bateu uma sensação muito boa. Meu dia começou a crescer em ritmo exponencial. Quando você pensa o bem, você atrai o bem.

Cheguei em Air-sur-la-Lys, que nome de cidade. O GPS não queria me dar o endereço da casa da Véronique, minha anfitriã via Warmshowers. Fui na unha, no mapa e perguntando. Cheguei a casa dela, abriu a porta com um imenso sorriso. Entrei, conversamos, falei que queria muito conhecer a cidade. Ela me disse, você está muito cansado, se não, saímos em meia hora. Meia hora depois, estávamos lá, eu e ela para um tour por Aire-sur-la-Lys. Fiquei impressionado a cada rua que entrava, uma cidade nova aparecia para mim. Flores nas ruas, uma igreja linda e a cidade em festa. Sim, minha primeira parada na França via Warmshowers não poderia ser melhor. Véronique me apresentou para diversos amigos e amigas que cruzava, falava com orgulho a eles que eu era um ciclista brasileiro que atravessava a França rumo à Barcelona por um boa causa. Todos se interessavam em saber um pouco mais da minha história.


Voltamos à casa dela, ela falou que faria um jantar para mim, fiquei sem graça mas aceitei. Assim, fez um aperitivo e depois um ratatouille e um frango com arroz para janta. Não sabia o que fazer para me agradar. Tomamos um champagne, brindamos, sentia que era um momento especial para ela. Sentamos para jantar, conversamos muito sobre tudo, filhos, religião e aí entendi o prazer dela em me receber. Imagina você uma mulher que mora sozinha, 61 anos, recebe um estranho na casa dela, me deixa a vontade para tomar banho e dormir na cama do filho dela. Sim, isso é possível quando você tem amor no coração, essa foi a mensagem que ela me passou. Não havia contrapartida financeira, havia sim, o prazer pelo conhecimento, por escutar a história do outro, por ouvir e ser ouvida por alguém que talvez nunca visse mais. Um encontro de horas, sem pretensão, um encontro com começo, meio e fim, um encontro o qual tinha o tempo como a variável menos importante, um encontro verdadeiro, um encontro de coração. Esse sim, era o verdadeiro motivo de ela ter me recebido.


Aos prantos escrevendo esse texto, me emociono e acredito que podemos transformar esse mundo num lugar sustentável. Sustentabilidade é tema dessa viagem, entretanto deixo claro que não só no sentido ecológico, mas no sentido humano. Doar-se um pouco mais ao outro pelo simples motivo de doar-se, sem contrapartida, mas simplesmente porque essa sim é a expressão mais pura do amor e do carinho. Agradeço imensamente ao Warmshowers por ter me proporcionado esse encontro.

Vou dormir e agradeço você que doou seu tempo a essa literatura. Já que chegou até aqui, pare e reflita, vamos juntos criar um mundo sustentável e com mais amor? Vem comigo amanhã para Amiens para mais um etapa e mais uma história dessa jornada rumo ao amor verdadeiro. Acompanhe-me porque a sua presença faz diferença para mim. Até Amiens!


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Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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