Travessa Alto Acará


O relógio despertou às 5h45. O dia estava amanhecendo e o café no hotel começava às 6h30, tempo suficiente para eu e o Walber começarmos a ajeitar tudo.

Acabamos saindo quase 7h30, mas os 62 km e a altimetria praticamente plana até Alto Acará iriam nos ajudar. Walber iria me acompanhar pela última vez e depois tomaria caminho de volta a Belém, resgatado de carro por um primo.

A estrada não estava tão movimentada, afinal era Domingo, quando a maioria dos caminhoneiros descansam. A pista começou com um tímido acostamento, que não durou muito. Logo em seguida, a estrada virou duas vias, que tínhamos que dividir com caminhões, pedestres e ciclistas. Quase todo o trecho passava por pequenas comunidades, onde se multiplicavam mercadinhos e pequenas vendas à beira da rodovia. Paramos em uma dessas barracas, tomamos um caldo de cana e seguimos com vento a favor, desenvolvendo média de 25 km/h.

A estrada cortava enormes plantações de palma, árvore cujo fruto se extrai o óleo de dendê. Não sabia, mas o Brasil é o maior produtor mundial desse óleo e o Estado do Pará é onde se localiza a maior plantação e produção da palma. Entre os milhares de pés de palma que atravessei, encontramos uma caçamba lotada de frutos. Atrás delas três trabalhadores rurais, pessoas simples, que se chocaram ao ver a bike carregada. A pausa para a prosa e fotos foi inevitável.

Continuamos pela estrada e não demorou muito para chegarmos à travessa Alto Acará. Não há nada aqui, apenas um posto de gasolina, um restaurante e hotel para caminhoneiros e uma bifurcação em uma estrada de terra que leva à rodovia Belém-Brasília.

Walber e eu chegamos cedo e resolvemos terminar o pedal do dia por aqui. Já eram 11 h e o calor começará a atingir seu ponto máximo. Fomos almoçar, conversamos muito, trocamos muitas informações.

Aluguei um quarto para eu passar a noite, enquanto Walber já começava a preparar seus equipamentos para partir. Por volta das 16 h, seu resgate chegou. Colocou a bike no rack e partiu de volta a Belém.

Ao ver seu carro partindo, subi imediatamente ao pequeno quarto que reservei. Olhei para os lados e lá estava novamente eu e a bike. Certamente reparei que Walber sentiu a despedida. Queria deixar marcado um próximo encontro ou um próximo momento para nos revermos, mas e eu? Minha vida nesse momento se constitui a um mar de encontros e despedidas. Confesso que algumas são mais doídas que outras, mas não há muita opção, senão continuar. Acredito que o mais difícil é os primeiros momentos, nós nos acostumamos a tudo e a regra básica aqui é acostumar-se a nada. Cruel por um lado, mas sei que o tempo cicatriza tudo. Para mim, o passado curto some em fração de segundos e o futuro longínquo não consigo visualizar. Aceitar o presente, o que tenho às mãos para lidar com meus problemas técnicos, para improvisar, as escolhas são muito pontuais.

Agora estou bem e preparado para virar a página desse dia tão logo o Sol brilhe novamente na minha janela.


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