SOLIDÃO OU SOLITUDE?



Estou em Akureyri, a 2ª maior cidade da Islândia, fica no norte do país, moderna, uma graça.


Não tive uma noite boa. Tento me manter em situações que concernem à continuidade da expedição como, roupa, comida, chuva ou vento. Difícil manter permanentemente essa linha.


Tenho tentado me concentrar ao máximo para dar continuidade à expedição islandesa, sem sombra de dúvidas, a mais adversa que já enfrentei desde o início do projeto.


Ontem, depois de ter chegado à cidade, ocorreu-me algo. Necessitava conversar com alguém! Sei que a solitude é boa, promove o autoconhecimento, mas garanto que também enlouquece. Minha lista de contatos no celular é grande, a de seguidores no Instagram maior ainda, mas para que? Quem são, onde estão essas pessoas e no que podem me ajudar?


Em Akureyri, cidade que completo 30 dias de expedição, estou rodeado de gente de todos os lugares do mundo o tempo todo e sabe o que isso quer dizer? Nada! Por mais que a minha comunicação em inglês seja muito boa, sinto-me invariavelmente como a Islândia, uma ilha solitária perdida no meio do Atlântico Norte.


Era tarde da noite quando resolvi ir ao centro de Akureyri para tomar algo e tentar conversar com alguém.


Geralmente bebo muito pouco, quando estou em expedição quase nada; é algo que definitivamente não me dá prazer, mas vejo a dificuldade social de entrar em um barzinho e só pedir uma água. Parece que a sociedade nos empurra à bebida alcoólica. Enfim, o barzinho que entrei tinha a cara da Islândia, moderno e introspectivo. Sentei no balcão, ao lado de uma islandesa típica, magra, loura, olhos azuis, mas que babava em cima do seu laptop e não olhava para os lados.


Tomando minha água e sem ter com quem conversar, lembrei por hora de um viajante que me inspirei e tive a honra de encontrar pessoalmente e que me veio à cabeça. Dani Ku, ciclista espanhol de viagens, que inspirou minha expedição pela Patagônia e que encontrei pessoalmente no Chile. Dani havia escrito uma carta em seu blog na qual dizia que pararia de viajar pedalando, mas por qual motivo? Câncer! A primeira imagem que me veio à cabeça foi o da minha mãe, que sofreu muito, propunha a união da família e faleceu sozinha da doença. Assim, comecei a chorar na mesa do bar.



A linda carta escrita por Dani, intitulada “mi penúltimo viaje”, (pode ser vista na íntegra em seu blog https://www.vivirenbicicleta.com/mi-penultimo-viaje/ )começa com um poema de Confúcio, o filósofo, que diz:


“Todos temos duas vidas e a segunda só começa quando entendemos que só temos uma.”


Confesso que esses momentos a só que passo são muito difíceis. Sei que nascemos sós, assim como morreremos também, mas quando leio casos como o de Dani, sinto uma solidão existencial, estrutural que não sei se o fato de encontrar pessoas ao acaso seja a melhor saída.


Deixei o bar em um dia frio e gelado em Akureyri, saí para caminhar na noite de sol, pelas ruas vazias e vento gelado. Tudo isso me trazia ainda mais dor. Autoflagelação? Talvez a única maneira de ter base para suportar uma dor indiscutivelmente maior, como a que a minha mãe passou ou a que provavelmente Dani passará.



Sigo acreditando que antes da depressão, isso é crescimento. Estamos aqui só de passagem, só de passagem.

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