Paraná + decisões


Tive um encontro inusitado. Um desses que só uma expedição de bike poderia oferecer. Estava eu atravessando a região de Guaimbê, seguindo sentido Marília quando resolvi parar em um posto de combustível no meio de estrada para comprar um isotônico. Entrei no posto, comprei a bebida e quando fui pagar um homem simples de nome Clovis, funcionário do posto, veio até mim e me fez a pergunta mais comum: aonde vais, de onde vens? Explicado o trajeto, a rota e os porquês, uma indagação: você vai mesmo continuar pela BR 153 até o sul do país? Após a minha afirmação positiva, olhou-me desconfiado e me aconselhou sutilmente: “se eu fosse você iria sentido Ponta Grossa e Curitiba, via Wenceslau Braz e continuaria a jornada pelo litoral. Ir pelo meio da região sul é perigoso, há muita elevação e você ficará estressado. Eu já pedalei essa rota e sei bem como é”. Conforme Clovis ia falando, fui ouvindo e tentando guardar as dicas, uma vez que meu orgulho de planejar tão bem as etapas não me deixou anotar as preciosas informações naquele momento. Ao deixar o local, ainda com o orgulho em alta depois de meses planejando a rota do Oiapoque ao Chuí, parei debaixo de uma árvore e, como se tivesse me escondendo, anotei todas as dicas de Clovis. Guardei-as e parti.

Como vocês acompanham, entrei no estado do Paraná por Santo Antônio da Platina, pequeno município, perto de Jacarezinho e da divisa com São Paulo. Depois de passar uma noite em Santo Antônio, saquei o papel onde havia anotado as dicas de Clovis. Lembrei que a decisão de mudar de rota estava a 12 km de mim. Parti pedalando pela movimentada BR 153 e aos poucos foi me “caindo a ficha” e lembrando de uma frase do estoico Epicteto: “o que depende de nós é aceitar ou não o que não depende de nós”. E naquele momento, jogar meu orgulho na lata do lixo e aceitar um conselho de um cicloviajante simples seria uma decisão só minha. A bifurcação da BR 153 com a PR 092 foi lentamente se aproximando e, quando chegou, parei e estacionei na faixa zebrada. Olhei para os dois destinos que me levariam aos mesmos lugares e numa questão de segundos, mudei a rota de toda o restante da expedição.

Segui em frente via Wenceslau Brás, passei por Piraí do Sul e Ponta Grossa. A estrada ficou dupla em Jaguariaíva, quando nessa cidade tive a felicidade de encontrar com crianças que pedalaram comigo algumas centenas de metros. Passei a ficar mais leve e crente que havia tomado a decisão correta de mudança de itinerário.

Alcancei Ponta Grossa, onde tive uma incrível recepção oferecida pelos ponta-grossenses, entre eles o Robes, que não mediram esforços para me deixar à vontade e em paz. Encontrei o Alex Ribeiro, proprietário da maior loja de bicicletas de Ponta Grossa que me ofereceu pouso em sua casa. Conheci o Eduardo, da Del Paine Adventure, uma incrível loja de roupas para esporte ao ar livre. Pedalei com o Gustavo, professor de educação física de Ponta Grossa, que fez questão de me escoltar pelos quilômetros da BR 376 que me levaria a Curitiba.

Alcancei a Curitiba ontem, desgastado, mas para pernoitar três noites na casa de amigos de longa data.

Foram 4.631 km de trajetória até esse momento e descanso nessa cidade.

A decisão de mudança de rota foi marcante nesse momento onde corpo e mente já estão estressados. Aceitar as diversidades da BR 153, sua altimetria e periculosidade certamente fugiam da minha alçada, mas essa fora paralisada pelo meu orgulho.

Alguém me abriu os olhos naquele momento. Não posso dizer se será a decisão correta percorrer todo o litoral sul pela BR 102, quem sou eu, mas sem dúvida uma decisão mais sensata, pois nesse momento, no que depender de mim, lembrarei desse simples homem pelo sábio conselho. Obrigado Clovis!


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